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"Rútilo nada", Hilda Hilst





Miragem, muragem

        José Antônio Cavalcanti

        O conto “Rútilo nada” foi publicado originalmente pela Livraria e Editora Pontes, de Campinas, em 1993, ao lado de A obscena senhora D  (1982) e do conto “Kadosh” (1973). Na edição da obra completa de Hilda Hilst promovida pela Editora Globo, o organizador, o crítico Alcir Pécora, resolveu colocá-lo, após consulta à autora, no mesmo volume dos contos reunidos em Pequeno discurso. E um grande, lançado em 1977, ao lado de “Kadosh” e de Fluxo-Floema (1970), no livro Ficções. A própria autora deu ao novo conjunto o título de Rútilos (1)
.
        A narrativa tem início com um narrador em primeira pessoa num fluxo de consciência que, após desnudar o estado de espírito do protagonista, arremessa o leitor à cena dramática em que Lucius Kod, jornalista, filho de banqueiro, 35 anos, casado, pai de filha adolescente, entra em desespero por causa da morte do amante, Lucas, 20 anos, estudante de História e poeta. O que, à primeira vista, faz lembrar os textos rodrigueanos, desenvolve-se, no entanto, em outra direção graças à linguagem e à propriedade ética levantada pelo desnudamento da violência que recai sobre vidas deslocadas do centro do poder.
        No jogo de espelhamento e retomadas ao longo da obra hilstiana, nessa narrativa projeta-se a sombra da personagem Lucas, do conto “Lucas, Naim”, publicado 15 anos antes, que se refere a si mesmo como “modelo intemporal nem presente nem passado, posso ser este e outro, posso não ter sido e ser sempre (...) (Hilst, 2003, p.45), Sua proximidade em relação a Naim também é uma experiência perturbadora: ”Por que não dizes que também eu estou em ti colado, que estamos um no outro há muitos meses, que te envergonhas de um sentir muito sentiente, juntura que te parece desabusada?” (p. 50) (2). O conto registra de modo mais intenso a diferença entre a juventude do amante e a sua própria decadência física: “não era o que eu pretendia na velhice, amar um outro homem (...)” (p. 51). “Lucas, Naim” termina com o velho amante lançando-se nos braços da morte. O suicídio também é uma saída ao encurralamento existencial em “Rútilo nada”, cuja saída apresentada, no entanto, apresenta uma solução inversa: é o jovem quem se mata.
        Na duas narrativas, como em todas as outras de Hilda Hilst, existe a força inquietante da morte como presença do incognoscível no horizonte humano, fonte de toda a sorte de reflexões que tensionam a existência. Em “Lucas, Naim” encontramos uma espécie de senha de acesso a várias personagens hilstianas:

porque ainda que eu não esteja morto, estou à morte há muitos anos, desde que eu resolvi olhar o que existia além, o descarnado de mim, ir lá adiante onde os outros paralisados aqui, suspeitam apenas que há um pavoroso mais adiante, e indo mais adiante a pergunta inflou poderosa: há Deus na morte?” (p. 47)

        Também em “Rútilo nada” observa-se a tentativa de ir além dos limites da aceitação e da previsibilidade, processo de descoberta e reinvenção do desejo que desnuda a naturalização de códigos culturais como critério de fixação de padrões afetivos exclusivamente heterossexuais ao explorar a intensidade e a beleza de laços homoeróticos. A trágica história amorosa atravessa a angústia de quem é conduzido por um “Ducente Deo” à queda, à ruína, à morte. A conjunção de carne e metafísica no mesmo espaço potencializa a crueza da perda, dando-lhe uma dimensão  próxima à religiosidade barroca, entre o gozoso e o agônico, em doloroso diálogo com a ausência de Deus.   
        O espelhamento avança numa espécie de duplicação nominal. Lucas e Lucius têm origem comum no nome originado do grego Loukás, forma reduzida de Loukanós, com o significado de natural da Lucânia, lucano. Ambos vêm da raiz grega lyke, luk ou luc, da qual deriva a palavra latina lux, que significa luz, razão pela qual também se atribui a Lucas o sentido de “luminoso”. Uma tradição antiga reservava  o antropônimo Lucius para designar aqueles que nasciam com as primeiras luzes do dia. Observe-se que a origem do termo Lúcifer, a forma latina lux fero empregada na tradução da palavra hebraica הֵילֵל — “Então! Caíste dos céus, astro brilhante, filho da aurora!” (Isaías, 14:12) — hêyliel, também é uma referência ao caráter luminoso associado à ideia de queda com o qual a tradição cristã cunhou a imagem do anjo decaído. Conotação pertinente ao universo simbólico cristão tão vivo no conjunto da obra da autora, particularmente pela associação entre a perfeição física do rival dos homens e a tentação exercida pela beleza de Lucas sobre Lucius.
        O primeiro muro em “Rútilo nada” é construído por preconceitos, mãos, vozes e indivíduos que separam o viúvo de seu morto.  Surge arquitetado no interior da cena inicial, alicerçado por cinco palavras realçadas espacialmente no texto: “constrangedor”, “louco”, “demente”, “absurdo” e “intolerável”. Índices de estranhamento que empurram Lucius para fora, colocam-no como um sem lugar, flutuando nas franjas da marginalidade social. Essa barreira discursiva é erguida por “um indescritível verdugo, alguém Humano, e há tantos indescritíveis Humanos feitos de fúria e desesperança, existindo apenas para nos fazer conhecer o nome da torpeza e da agonia” (p. 64), referência universalizante à figura paterna, cuja natureza destrutiva  faz parte da condição humana.  O fluxo de consciência teatralizado reproduz, em flashes, cenas, falas e pensamentos a dupla interdição: se o corpo de Lucas deveria lhe ter sido negado em vida, muito menos lhe seria permitido por seu círculo social o espetáculo da viuvez desesperada.
        Na arquitetura do texto, há uma acumulação genérica tipicamente hilstiana. Estados emocionais, cenas, diálogos, citações, reflexões, narrativa epistolar, poemas, descrições, camadas textuais, costuradas numa sintaxe de contrastes habilmente construída, criam o ritmo vertiginoso em tons de tragédia.
         O segundo muro, na verdade outro ângulo da longa barreira erguida contra a homoafetividade, reconstrói a fala paterna e o que ela guarda das relações hieráquicas que servem para padronizar um modelo de sociedade branca, machista, hetero, cristã e capitalista, em cujo topo repousa, como pequeno deus impiedoso, o pai repressor “desfigurado” pela escolha do filho, espelho partido incapaz de reproduzir o círculo original de ascensão social, poder e macheza, fruto em busca de autonomia no movimento de ruptura da casca, do abrir-se maduro ao calor e brilho de outro homem: “Porque fui atingido pela beleza como se um tigre me lanhasse o peito” (pp. 87-88)    
        Volta Lucius, em busca do começo, à ambígua e tensa apresentação do amante ao pai inominado. Diálogo revelador da falta de sintonia entre o universo pragmático do banqueiro e o campo de interesses do filho e seu novo amigo: reportagens políticas, história, poesia. Mais uma vez Hilda Hilst recorre ao processo de trabalhar uma estrutura esquemática até dissolvê-la em uma devastadora aporia.
        Ética burguesa e estética são tensionadas nos extremos de pressão insuportável, cuja ruptura aponta para o aniquilamento da possibilidade de escolha num mundo de rígidos padrões de comportamento determinados por relações capitalistas voltadas para reduplicação infinita de valores burgueses secularmente hegemônicos. O drama de Lucius é o seu verdadeiro nascimento “Posso deduzir que escapei da casca consistente, que eu estava encerrado ali, não, que o meu corpo era o fruto da paineira, todo fechado, e num instante abriu-se. Abriu-se por quê? Porque já era noite para mim e aquele era o meu instante de maturação e rompimento”. (p. 87).
        A primeira estrofe do poema de Charles Baudelaire “Une charogne”(3)  — “Alors ô ma beauté! Dites à la vermine / Qui vous mangera de baisers, / Que j’ai gardé la forme et l’essence divine / De mes amours décomposés!” — indica a permanência do brilho da beleza apenas como memória, luz intensa apagada logo após ser acesa. A relação antitética entre a vida plena e a morte, o nada que a circunscreve, contribui para a ruptura dos textos hilstianos com qualquer esquematismo. O esplendor da carne amante transformada em cadáver leva Lucius a sentir a morte como “madrasta roedora”, a perda da luz clandestina da beleza, ao apagar-se por decomposição corporal, é o que traz a estrofe à memória.
        O brilho da paixão toca os limites entre ética e estética. “Porque fui atingido pela beleza como se um tigre me lanhasse o peito. O salto. O pânico. O que é a beleza? Translúcida como se o marfim do jade se fizesse carne, translúcido Lucas, intacto, luz sobre os degraus ocres de uma certa escada na eloquência de tudo”. Abalo completo no muro das convenções o impulso que o leva a cair nos braços do namorado da própria filha.
     Em entrevista ao Estado de São Paulo, Hilda Hilst explicitou o que considerava ético em suas narrativas:

O  que  existe  é  que  eu  escrevo  movida  por  uma compulsão ética, a meu ver a única importante  para  qualquer escritor: não compactuar. Para mim, não transigir com o que nos é  imposto  como  mentira  circundante  é  uma atitude  visceral, da alma, do  coração, da mente  do  escritor. O   escritor  é   o  que  diz  “Não”, “Não participo do engodo armado para  ludibriar as pessoas”. No momento em que eu ou qualquer  outro  escritor   resolve  se  dizer, verbalizar  o  que  pensa  e sente, expressar-se diante  do outro, para  o outro, o  leitor, então  o  escrever  sofre  uma transformação  essencial. (...) Uma  transformação   ética  que   leva  ao  político: a linguagem  e  a  sintaxe   passam  a  ser  intrinsecamente   atos  políticos  de não pactuação  com  o que  nos circunda e que tenta nos enredar com o seu embuste, a sua mentira ardilosamente sedutora e bem armada. (4)


     Lucius, face a questionamento ético de Lucas, recorre a argumento histórico, a existência de uma tradição cartaginesa que impedia a separação de sogro e genro. Exemplifica com o caso de um capitão do exército, também casado e com filhos, apaixonado por outro homem mais jovem. Assim, as relações impuras, historicamente presentes entre os homens, revelariam uma linhagem, uma força incontrolável capazes de garantir o processo de naturalização de sua existência, ainda que fora do código hegemônico, como se habitassem uma permanente zona de conflito entre o desejo e a Lei. Esse é o jogo hilstiano de tensões cujo desfecho é irremediavelmente o estilhaçamento das personagens encurraladas entre a transgressão e o desamparo.  Vera Queiroz traça uma síntese pertinente da escrita ofídica hilstiana a construir um jogo de assombros, prazeres e venenos:

,..toda  a  literatura  de HH constrói-se  sobre  essas  mesmas forças centrípeta e centrífuga [alta voltagem do discurso e a linguagem erótico-político-amorosa], no sentido de que o movimento de seu  discurso  funciona  como  uma espiral que se enrodilha  sobre  si mesma, cobra que morde sua cauda, ao mesmo tempo em que se  projeta sempre para um além  de si, para  um território  em que o místico  e  o êxtase  se  confundem. Também aqui se trata do amor, do amor a um  Deus feroz em  sua  intangibilidade, como  se    em   A  obscena  senhora D, e do amor dos homens  impuros, do  amor transgressor entre os de mesmo sexo, como na novela Rútilo Nada. (QUEIROZ, 2000, pp. 61-62)

        A resposta à incômoda preocupação do amante é a fuga às normas reguladoras de desejos, o exercício de liberdade completa: “...ético é descobrir-se inteiro livre como me sinto agora...” (p. 91),
        A paixão clandestina também apresenta um grau de turbulência interna promovida pelo ciúme sob a forma de voyeurismo sádico à espreita de possíveis ameaças no meio da multidão. A agônica possibilidade de perda transforma o corpo luzente em beleza prostituída:

e eu não sou o que sou, sendo este que sou agora, devo dizer que umas cordas feitas de sangue e plasma me amarram a ti, estou inteiro úmido de cólera porque vi que os teus olhos olharam o muito supostamente viril atravessando a rua e que o teu olhar foi de cumplicidade e de desejo e que os traços do teu rosto não são mais daquele inteiríssimo poeta, são vincos pesados e solenes sim, mas de um reles prostituto (p. 94)


        Culpa e má consciência alimentam a retomada da fala de Iago em Otelo: “Não sou o que sou!” (Shakespeare, 1981, p. 333). A sentença repetida várias vezes revela não só o “ciúme opulento” de Lucius, mas também a sufocante presença de um deus-pai nomeado pelo avesso da forma bíblica “sou o que sou”. Além disso, a frase marca a crise identitária de um indivíduo esmagado por violenta pressão social, no centro da qual encontramos a figura paterna. A mudança radical da trajetória heterossexual de Lucius, que o leva a gostar de outro homem, transforma-se em muro interno erguido pela educação e pela experiência sexual anterior, permanente ponto de tensão de seu desejo amoroso. Abaixo da superfície do indivíduo, tudo o que existe é o campo aberto do incognoscível: “Eu não sou o que sou, fico me repetindo, nem fêmea alguma e macho muito menos me colocaram aqui neste tempo onde estou, tempo desordenado, avessos de um rumo, grandes areias negras tumultuadas, cascalhos, brilhos” (p. 94). Essa confissão permite aproximar a trajetória do par Lucas-Lúcius ao percurso de Meu-Matamoros, em “Matamoros”, do livro Estar sendo. Ter sido,  em que a fantasia da protagonista busca no Imaginário a possibilidade de concretização.
        A luz que iluminava o corpo de Lucas era projetada pelo caos interno de seu amante. A mudança de voltagem erótica entre os dois homens, cujas oscilações entre macho e fêmea causavam tanta perturbação em  Lucius, se despertam ciúme e questões éticas, por outro lado revelam a complexidade do desamparo humano, potencializado na narrativa pelo altíssimo grau de violência que recai sobre Lucas.
     Na rede de intertextualidade armada no conto, não passa despercebido o papel desempenhado pela referência a um artigo de Noam Chomsky sobre o terrorismo de estado praticado em El Salvador, na década de 80, com o assessoria norteamericana. “mulheres penduradas pelos pés com os seios arrancados, a pele do rosto também arrancada” caem no colo do banqueiro, moedeiro do horror. As relações econômicas engendram não a ordem, o progresso, mas um mundo miserável, espaço de construção de autoridade lastreada em orfandade e viuvez. No território estreito da intimidade, o pai é o criador do filho órfão e viúvo. A violência revolve toda a existência, da política aos afetos. A antinomia pai capitalista x filho rebelde é rompida pela proliferação de cisões que desnudam tanto no centro quanto  na borda a derrelição matricial. 
        Também o pai inominado é tomado por hybris devastadora, oculta a sete chaves no mundo standartizado onde se apresenta como cumpridor de funções e protocolos. As preocupações com a macheza do filho, a continuidade da linhagem, a formação, as amizades, os caminhos, tudo forma tênue película protetora. Todo o zelo é necessário para que o próprio inferno não venha à tona. O outro nascimento de Lucius racha o escudo paterno. A perturbação trazida por Lucas à trajetória heterossexual do filho também abala a carapaça ideológica do todo-poderoso banqueiro, cuja solidez significa blindagem à sordidez mais funda; o pai é o inesperado rival no mesmo palco do filho, à procura da mesma luz no corpo de outro homem.
     A violência homofóbica paterna contra os amantes é um tratamento de choque, repulsiva e contraditória hipérbole teatralizada, voltada para desalojar o leitor da leitura passiva, provocá-lo, obrigá-lo a enfrentar a crueza da ação diante de seus olhos, montada num processo inspirado no teatro da crueldade de Artaud, proposição inscrita na dramaturgia como um tapa na cara da alienação, .
     Crueldade também guarda, em “Rútilo nada”, o sentido que lhe foi atribuído pelo filósofo Clément Rosset, na obra O princípio de crueldade:

Por  ‘crueldade’ do  real  entendo, em  primeiro lugar, a  natureza  intrinsecamente dolorosa  e trágica da  realidade; [...] basta-me  lembrar  o  caráter  insignificante e efêmero  de  toda  coisa  do  mundo. Mas entendo também por crueldade do real o caráter  único, e  consequentemente  irremediável  e  inapelável, desta  realidade – caráter  que impossibilita  ao mesmo  tempo  conservá-la à distância  e atenuar seu rigor pelo  recurso a qualquer  instância  que  fosse exterior a  ela. Cruor, de  onde deriva  crudelis  (cruel) assim como  crudus (cru, não digerido, indigesto) designa a carne  escorchada  e  ensanguentada: ou  seja, a  coisa   mesma  privada  de  seus ornamentos  ordinários [...]. Assim, a  realidade  é cruel  – e indigesta – a partir do momento  em  que a  despojamos de tudo o que não é ela para considerá-la apenas em si mesma. [...] o que é cruel no  real é de  certo modo  duplo, por  um lado  ser cruel, por  outro  lado ser real. [...] Parece que o mais cruel da realidade não reside em  seu   caráter   intrinsecamente   cruel, mas  em  seu  caráter  inelutável, isto  é, indiscutivelmente cruel. (2002, pp. 17-18)

       i
            A carta de Lucas relata a curra e a surra sofrida nas mãos de dois homens a serviço do grande capitalista. Toda a violência política contra o povo salvadorenho por Chomsky adquire conotações mais fundas, a crueldade intestina alimenta-se dos despojos do corpo. Os capangas que seviciam Lucas fazem parte de um batalhão Atlacatl universal, repressor de todas as formas de manifestação de liberdade. A construção ambígua de “vai ter tudo comigo, moço. Afasta-se do meu filho.” (p. 98), ameaça e promessa, traz à tona a ponta de um continente desconhecido, de cujas fendas surge o pedido para tocar o corpo da vítima e o beijo como a coroação de todo o processo de caça e aniquilamento:  “Ele beijou minha boca ensanguentada. Eu sorri. De pena da volúpia.” (p. 99). 
        Lucas, em meio à sessão de tortura, é atravessado por uma perspectiva que singulariza o desamparo dos dois amantes: ”quero dizer da dor de não ter sido igual a todos. Minha alma velha busca entendimento.” (p. 98). Ambos compartilham o mesmo território de exclusão, condenados a uma espécie de exílio no interior de sociedade hostil a suas escolhas. À dúvida essencial sobre a própria condição humana, acrescenta-se a distinção/indistinção genérica na raiz da crise identitária de ambos, pressionados pela urgência dos corpos e pela rejeição de que são vítimas.
        A inclusão de um poema dividido em sete partes no final da carta é um recurso que Hilda Hilst irá repetir em sua última narrativa, Estar sendo. Ter sido, estrategicamente fechada com o poema “Mula de Deus”, após o qual surge apenas pequena frase antes da última citação. A última referência em “Rútilo nada” opera uma subversão do verso "Nihil humani a me alienum puto", do poeta latino Terêncio (185 a.C.-159 a.C.), transformado em “tudo o que é humano me foi estranho” (p. 103), perfeita tradução de uma vida apartada, no território de caça aos indesejáveis.
        Num texto cuja organização foge à estrutura linear, com intercalações genéricas e temporais habilmente elaboradas, não se pode falar em narrativa caótica. A proposta estética hilstiana investe na linha de confluência entre prosa, poesia e reflexão, foge a esquematismos de gênero, quebra sequências temporais e move-se com maestria na zona limítrofe entre prosa, poesia e pensamento. A autora parece contrabandear da obra poética e das peças que nos legou todo um arsenal de recursos que contribuem para a criação de singularidade de suas narrativas.  
        Os muros revelam abandono e encarceramento em vez de proteção e abrigo. Desde a infância intransponíveis construções altas, de início acolhedoras, defesas naturais da infância, vão progressivamente se transformando no campo esfacelado do ser, armadilha e labirinto em que o caminho é pura aporia. A metáfora zoomórfica “escorpião de seda”, presente na sexta parte do poema, fornece a Lucius a tentativa de entendimento das violentas oscilações do desejo sobre ambos, de suas ambiguidades, da antitética tensão entre a paixão e a engrenagem social que os estilhaça.

Escorpião de seda. Pulsando silencioso ali entre as frinchas. Ou eras o outro no quase escuro do quarto. Úmido. De seda. Tua macia rouquidão. Igualzinha à macia rouquidão de uma sonhada mulher, só que não eras uma mulher, eras o meu eu pensado em muitos homens e em muitas mulheres, um ilógico de carne e seda, um conflito esculpido em harmonia [grifo nosso], luz dorida sobre as ancas estreitas, o dorso deslizante e rijo, a nuca sumarenta, omoplatas lisas como a superfície esquecida de um grande lago nas alturas, docilidade e submissão de uma fêmea enfim subjugada, e aos poucos um macho novamente, altivo e austero, enfiando o sexo na minha boca” (p. 96)

        Há um território comum a Lucius, Lucas e Hillé, protagonista da narrativa A obscena senhora D, obra em que se encontra a maior proximidade do texto hilstiano com a forma do romance. Nela encontramos um grau intenso de estranhamento e da agônica perspectiva de existir no abismo do exílio e da exclusão radical das regras de convívio. Rejeição responsável pela animalização de Hillé e pelo surgimento de violenta provocação a um Deus encerrado num céu vazio e indiferente. Estética e teologia negativa radicalizam o real como insuficiência e manifestam o devir como esvaimento e dissipação. O desamparo potencializa o vigor e o furor das perguntas direcionadas a um Deus que se manifesta como ausência. Em “Rútilo nada”, a inviabilidade humana é traduzida por muros social, econômica e ideologicamente moldados pela civilização, é verdade, mas a figura do pai todo-poderoso, dotado do poder de vida e morte, marca a pulsação inescrutável e violenta do desemparo, do abismo onde vivem os homens.
        A derrelição é o estado permanente do universo hilstiano, no qual as personagens giram obcecadas em torno de questionamentos abertos incessamente como feridas metafísicas, latejando no mundo sem centro, sem a ilusão de qualquer  resposta  à  contingência humana, sem áreas dotadas de demarcações territoriais capazes de propiciar aos indivíduos qualquer sentimento de pertença. A porca encurralada no vão da escada em A obscena senhora D é a experiência do exercício da vida sob estado de cerco e perda permanente. O desamparo em “Rútilo nada”, se não se vale de processo similar à desumanização simbólica da redução de mulher a animal, recorre a extrema crueza na exposição do grau violentíssimo de repressão homofóbica. A cintilância tão recorrente em suas páginas é  luz instável e volátil a sangrar no vazio, no campo da angústia contra a qual, em meio à dor, à tortura e à morte, os indivíduos reagem como se atendessem a observação de Kierkegaard, um dos filósofos prediletos de Hilda: “Quem não deseja afundar-se na miséria da finitude é compelido a, no sentido mais profundo, atirar-se para a infinitude” (2010, p. 169). 
        Poucos textos da literatura brasileira alcançaram a densidade e a devastadora beleza desse pequeno conto, no qual estão enlaçadas demolidora  denúncia da cultura homofóbica, feroz crítica política, questões existenciais e linguagem ricamente trabalhada em vários registros. 
        Na carta de Lucas, ao fazer referência a livro de Petrarca, o autor comenta sobre o crescimento de significados dos objetos expostos à luz de outros momentos. O mesmo pode ser dito de “Rútilo nada”. Já não é mais um conto. A luz que o recobre lança-o no aberto, incide sobre cada leitura de modo a impedir apreensões cristalizadas, tornando-o um texto pulsante na linha sem fim entre os nomes luminosos, o inominado e o inominável.


Notas
[1] - A pequena narrativa de pouco mais de vinte páginas era uma das preferidas da autora. Em entrevista concedida a Luiza Mendes Furia para o Estado de São Paulo (1997), Hilda, em resposta à pergunta sobre qual o texto teria demorado mais a escrever, afirmou: “Foi ‘Rútilo Nada’. Esse, aliás, foi um que sofreu muitos cortes, era muito extenso, mas eu o queria perfeito. Demorei seis anos para escrevê-lo. Quando o Otaviano [refere-se a José Otaviano Ribeiro de Oliveira, a quem o texto é dedicado] começou a ficar muito doente, eu não consegui escrever. O personagem tinha parecenças com ele e só quando ele morreu é que pude terminar”.
2 -  As referências a “Lucas, Naim” e a “Rútilo Nada” doravante serão indicadas apenas pelo número da página.
3 - Segue o poema “Une charogne” (Uma carniça) na tradução de Ivan Junqueira: “Lembra-te, meu amor, do objeto que encontramos / numa bela manhã radiante: / Na curva de um atalho, entre calhaus e ramos, / Uma carniça repugnante. // As pernas para cima, qual mulher lasciva, / A transpirar miasmas e humores, / Eis que as abria desleixada e repulsiva, / O ventre prenhe de livores. // Ardia o sol naquela pútrida torpeza, / Como a cozê-la em rubra pira / E para ao cêntuplo volver à Natureza / Tudo o que ali ela reunira. // E o céu olhava do alto a esplêndida carcaça / Como uma flora a se entreabrir, / O fedor era tal que sobre a relva escassa / Chegaste quase a sucumbir.” (Baudelaire, 1985, pp. 172-173)
4 - Entrevista concedida a Leo Gilson Ribeiro, publicada no  jornal O Estado de São Paulo, em 16 de março de 1980. In Diniz, 2013,  p. 56.

  

Referências

ALBUQUERQUE, Gabriel. “Rútilo nada, de Hilda Hilst. confissão e deslocamento das paixões”. Estudos de Literatura Brasileira Contemporânea, n° 25, Brasília, jan-jun de 2005, pp. 147-157.
BAUDELAIRE, Charles. As flores do mal. Tradução de Ivan Jungueira. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985.
BÍBLIA SAGRADA. Edição Claretiana. 205ª edição. São Paulo: Ave-Maria, 2014.
CAVALCANTI, José Antônio. Palavra desmedida: a prosa ficcional de Hilda Hilst. São Paulo: Annablume, 2014.
CHOMSKY, Noam. “The crucifixion of El Salvador”. Disponível em:
Acesso em: 08.mai.2017.
DINIZ, Cristiano (org.). Fico besta quando me entendem: entrevistas com Hilda         Hilst. São Paulo: Globo, 2013.
HILST, Hilda. Rútilos. São Paulo: Globo, 2003,
_____. Estar sendo. Ter sido. São Paulo: Nankin Editorial, 1997.
_____. A obscena senhora D. São Paulo: Globo, 2001.
_____. Entrevista concedia a Luiza Mendes Furia para o Caderno 2 do jornal O Estado
        de São Paulo, em 31/05/1997.
KIERKEGAARD, Soren A. O conceito de angústia. Tradução de Álvaro Luiz
Montenegro. Petrópolis: Vozes; São Paulo, Editora Universitária São Francisco,
 2010.
QUEIROZ, Vera. Hilda Hilst: três leituras. Florianópolis: Mulheres, 2000.
_____, Pactos do viver e do escrever: o feminino na literatura brasileira. Fortaleza: 7Sóis, 2004.
SHAKESPEARE, William. Otelo, o Mouro de Veneza. Tradução de F. Carlos de Almeida Cunha Medeiros e Oscar Mendes. São Paulo: Abril, 1981.


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