![]() |
| Franz Kafka e Felice Bauer |
Kafka e a esfinge *
*
Texto publicado no Caderno B - Jornal do Brasil, em 30/05/2010.
Milan
Kundera, em A arte do romance,
contrapõe o trabalho dos romancistas ao dos biógrafos: enquanto aqueles
desmontam suas próprias vidas para construírem seus romances, estes desfazem as
obras dos romancistas para reconstruírem o que nelas se dissolveu. Dessa
observação, o autor extrai uma condenação aos segundos: “O trabalho deles não
pode esclarecer nem o valor nem o sentido de um romance; apenas identificar
alguns tijolos. No momento em que Kafka atrai mais atenção que Joseph K., o
processo da morte póstuma de Kafka se iniciou”.
O
postulado de Kundera, no entanto, é incapaz de obstar a força irresistível que
leva o leitor de Franz Kafka, premido pela inquietação deslumbrante de seus
textos, a invadir a esfera privada do homem de carne e osso na nascente da
obra. Invasão semelhante àquela que tenta se apropriar de sentidos emanados de
seus escritos, vestindo-os de leituras históricas, místicas, pós-modernas,
proféticas, psicanalíticas, sociológicas, teológicas. Felizmente Kafka é um
autor que sempre nos escapa. Nem por isso a estranheza que causa deixa de
provocar no leitor a sensação de vivenciar situações familiares, de atravessar
um mundo ao qual ele, de modo misterioso, também pertence.
Em O mundo prodigioso que tenho na cabeça: Franz Kafka, Louis Begley resolve enfrentar a maldição de Kundera. Para essa tarefa o autor efetuou uma rigorosa pesquisa documental, valendo-se dos diários, da correspondência e da obra ficcional do romancista.
Os
textos de Kafka publicados ainda em vida foram as novelas A metamorfose, Na colônia penal e os contos “O veredicto”, “Um médico rural”,
“Um relatório para uma Academia”, “Um artista da fome” e o último texto escrito
por ele, “Josefina, a cantora ou O povo dos camundongos”. Em carta ao amigo Max
Brod, seu primeiro biógrafo, Kafka pediu que queimasse tudo, à exceção das duas
novelas citadas e de “Veredicto”, “Na colônia penal”, “Um médico rural” e “Um
artista da fome”. Em outra missiva, autorizou-o a recuperar textos e cartas em
mãos de terceiros. O pedido revela o altíssimo grau de exigência que se
impusera e a preocupação com o caráter inacabado dos textos ainda não
publicados.
A inscrição de uma crítica ferina à intolerância em seus textos, mediante a denúncia dos absurdos do poder face à fragilidade do indivíduo, fez com que seus livros também fossem queimados em público e, em outubro de 1935, inseridos na “Lista de obras nocivas e indesejáveis” elaborada pelo regime nazista.
No
capítulo “A vida é meramente terrível”, Begley retrata os anos iniciais de
Kafka, nascido em 1813, e o ambiente judaico em que foi criado, inserindo-o em
uma sociedade marcada por acentuado antissemitismo. A coabitação com a família
foi um tormento para Kafka. O conflituoso convívio com o pai encontra sua
intensidade textualizada em Carta ao
pai.
Alto,
esguio, elegante, vegetariano convicto, tímido e com vergonha do próprio corpo,
Kafka também era adepto de práticas esportivas, apesar da constituição física
muito frágil, fator agravante da tuberculose que abreviou a sua existência,
levando-o à morte em 1924, aos 41 anos. Formou-se em Direito, fato que
seguramente propiciou contato mais íntimo com a linguagem jurídica, marca
onipresente em seus textos. Exerceu atividades burocráticas no Instituto de
Seguro contra Acidentes do Trabalho, onde ficou até ser aposentado por
invalidez em 1922.
Na
verdade, a maior preocupação de Kafka no início de sua vida adulta era
“descobrir uma ocupação respeitada e segura que lhe deixasse tempo suficiente
para escrever e não fosse tão árdua que lhe drenasse a energia intelectual e psíquica”,
assim poderia praticar o que realmente lhe importava ̶ “Como nada
sou além de literatura e não posso e não quero ser outra coisa além disso, meu
emprego nunca se apossará de mim”. Begley registra a relutância ou a
incapacidade de Kafka em correr riscos. Ressentia-se do provincianismo da
atmosfera intelectual de Praga, contudo nunca teve energia para romper com o
círculo judaico germanófono em que circulava: embora escrevesse em alemão, não
se descolava de Praga.
Begley
apresenta o autor vivendo num mundo fechado, num gueto exclusivamente
judaico ‒ “Nenhum cristão jamais foi incluído, germanófono ou falante do
tcheco”. Daí o aspecto inusitado de sua paixão por Milena Jesenská, de formação
católica, com quem trocou correspondência e que dele nos deixou um retrato
inesquecível: “Ele via o mundo cheio de demônios invisíveis a dilacerar e
destruir seres humanos indefesos. (...) Ele compreendia as pessoas como só
alguém com uma imensa sensibilidade à flor da pele pode compreender, alguém que
é solitário, alguém que pode reconhecer os outros num lampejo, quase como um
profeta. Seu conhecimento do mundo era extraordinário e profundo; ele próprio
era um mundo extraordinário e profundo”.
Todo
o segundo capítulo flagra, na sensibilidade kafkiana, a sobrevivência das
experiências de perseguição e exclusão sofridas pelos judeus e de intolerância
do nacionalismo tcheco ao uso do idioma alemão. O autor, no entanto, adverte:
“Mas ler a ficção de Kafka como histórias e parábolas da experiência
antissemita adornadas com uma piscadela destinada ao público judaico é
subestimá-lo. Em sua ficção ele transcendeu sua experiência judaica e sua
identidade de judeu. Ele escreveu sobre a condição humana”.
Kafka
apaixonava-se, era correspondido, demolia a própria paixão, subia e descia em
uma gangorra sentimental, escrevia centenas de cartas, parecia que o amor ia
acontecer, para tudo se desfazer no ar, inviabilizando qualquer possibilidade
de união e permanência. O que dizer de alguém que conseguiu ficar noivo duas
vezes da mesma mulher para abandoná-la? Qual o verdadeiro enigma de Kafka?
Impotência, loucura, homossexualismo, impossibilidade de qualquer convivência,
dedicação exclusiva à literatura, ascese?
Das
mulheres com quem se relacionou, apenas Felice Bauer e Milena Jensenská foram
imortalizadas em cartas de uma tensa e angustiada expressão amorosa. Pelo exame
da correspondência, pode ser percebido o grau absurdo da intromissão de Kafka
na vida de Felice: “Deve anotar, por exemplo, a hora em que vai para o escritório,
o que comeu no café da manhã, o que vê da janela de sua sala, que tipo de
trabalho faz lá, os nomes de seus amigos e amigas, por que ganha presentes,
quem tenta prejudicar sua saúde dando-lhe doces e as milhares de coisas de cuja
existência e possibilidades eu nada sei”.
Algumas
mulheres tiveram relativa importância, como Dora Diamant, Julie Wohryzek,
Hedwig Weiler. Outras passaram em puro anonimato. Sobre todas, contudo, podem
ser aplicadas as palavras de Kafka em referência à sua relação com Felice: “Não
posso viver com ela e não posso viver sem ela”. A mulher surge como alguém
simultaneamente desejado e inalcançável.
Após
apresentar o período final de Kafka, no quarto capítulo, “Sou feito de
literatura, não sou nada além disso”, registrando o agravamento de seu estado
físico, o autor esboça uma tímida interpretação na última parte do livro – “O
machado para o mar congelado dentro de nós” –, título extraído de uma bela
passagem de Kafka: “Precisamos de livros que nos afetem como um desastre, que
nos angustiem profundamente, como a morte de alguém que amamos mais do que a
nós mesmos, como ser banidos para florestas distantes de todos, como um
suicídio. Um livro tem de ser o machado para o mar congelado dentro de
nós”.
Ao apontar para a multiplicidade de leituras de O processo, Begley marca um ponto positivo ao criticar aqueles que veem no encontro no qual o noivado de Kafka e Felice foi rompido a culpa, a humilhação e o julgamento tematizados no romance, cuja frase inicial é uma das mais famosas da literatura do século XX: “Alguém certamente havia caluniado Josef K. pois uma manhã ele foi detido sem ter feito mal algum”.
Begley manifesta claramente sua preferência: “O castelo é um romance mais rico do que O processo na amplitude da narrativa, no desenvolvimento de personagens secundários cativantes e inesquecíveis (Frieda, Olga, Amália, as duas albergueiras da aldeia, Pepi e Bürgel, entre outros) e nas descrições da aldeia sem nome coberta de neve e dos interiores de estalagens e cabanas de camponeses que fazem lembrar as pinturas de Peter Bruegel. Se Kafka houvesse conseguido concluí-lo ou pelo menos levá-lo até mais próximo do término, O castelo seria o auge de sua criação”.
Benjamin,
citado por Begley, parece antecipar as afirmações de Kundera: “Kafka possuía
uma capacidade rara de criar parábolas para si mesmo. No entanto, suas
parábolas nunca se esgotam pelo que é explicável: ao contrário, ele tomou todas
as precauções concebíveis contra a interpretação de seus escritos”. Isso
não anula o trabalho de Begley, mas nos faz voltar correndo para os textos de
Kafka, seduzidos pela Esfinge que neles nos acena e provoca.

Comentários
Postar um comentário