

O carnaval na narrativa de Aníbal Macahdo
Introdução
O Carnaval é a festa mais representativa da cultura popular brasileira, consequentemente sempre despertou a atenção e a curiosidade de nossos escritores, fato comprovado em diversos textos a ele dedicados por Manoel Antônio de Almeida, José de Alencar, Machado de Assis, Raul Pompéia, Coelho Neto, Olavo Bilac, João do Rio, Lima Barreto, Mário de Andrade, Aníbal Machado, Marques Rebelo, entre tantos outros (1), ora sob a forma de textos circunstanciais, impressões de momento estruturadas em crônicas ou simples anotações meramente informativas, ora sob a forma de textos realmente literários; aqueles nos quais o carnaval é ficcionalizado. Observar essa multiplicidade de visões é acompanhar a sua recepção pela intelectualidade, o modo pelo qual é construído no imaginário de nossos autores e, simultaneamente, o modo pelo qual o constrói.
Na evolução histórica do Carnaval, podemos constatar que há, desde a Idade Média, modos diversos de relacionamento das elites com essa tradição popular. Às vezes predomina a aceitação da força dos elementos espontâneos da cultura popular, vistos como um rolo compressor, perante o qual qualquer resistência é nula; em outros momentos ocorre a aceitação parcial, ou seja, a cultura oficial concorda em legitimar o Carnaval desde que possa fazer algumas modificações, estabelecer normas e subtrair aspectos que considera negativos; além disso, existe a rejeição pura e simples, fruto de uma concepção de mundo incapaz de ver algum valor nas formas populares de cultura, consideradas baixas, impuras, ilegítimas, expressão grotesca das classes inferiores. Por trás de toda essa relação há uma constante: a tensão entre o caráter espontâneo e popular da festividade carnavalesca e os impulsos domesticadores e regulamentadores das forças institucionais que representam a cultura oficial.
Mikhail Bakhtin fornece algumas indicações que ajudam a compreender a origem dessa convivência conflituosa:
Na verdade, o carnaval ignora toda distinção entre atores e espectadores.
Também ignora o palco, mesmo na sua forma embrionária. Pois o palco
teria destruído o carnaval (e inversamente, a destruição do palco teria
destruído o espetáculo teatral). Os espectadores não assistem ao
carnaval, eles o vivem, uma vez que o carnaval pela sua própria natureza
existe para todo o povo. Enquanto dura o carnaval, não se conhece outra
carnaval, eles o vivem, uma vez que o carnaval pela sua própria natureza
existe para todo o povo. Enquanto dura o carnaval, não se conhece outra
outra vida senão a do carnaval. Impossível escapar a ela, pois o
carnaval não tem nenhuma fronteira espacial. Durante a realização da
festa, só se pode viver de acordo com suas leis, isto é, as leis da
liberdade. O carnaval possui um caráter universal, é um estado peculiar
do mundo. Essa é a própria essência do carnaval, e os que
participam dos festejos sentem-no intensamente. (BAKHTIN, 1987, 6)
Essa concepção do carnaval como um espaço de liberdade, de inversão de todos os papéis sociais, de supressão das interdições, leva o estudioso russo a vê-lo como expressão de "um segundo mundo e uma segunda vida" (BAKHTIN, 1987, 5), prova da existência de uma "dualidade do mundo". (BAKHTIN, 1987, 5) Ou, de acordo com Peter Burke, outro autor preocupado com a cultura popular, o carnaval marca o aparecimento de um "mundo virado de cabeça para baixo". (BURKE, 1989, 212)
A batalha entre o Carnaval e a Quaresma, fixada em tela por Brueghel, sempre esteve presente ao longo dos anos também nas festas momescas realizadas na cidade do Rio de Janeiro, espaço em que são ambientados os relatos aqui analisados. É certo que, desde as informações mais remotas, pode-se constatar a existência de tensões entre o caráter anárquico e libertário de suas práticas populares e a preocupação de controle e seriedade do mundo oficial. Este, mesmo em suas práticas públicas de diversão, cultiva uma forma civilizada, ou seja, move-se no interior de fronteiras flexíveis a expansão de jogos, festas e brincadeiras, com a condição de que sejam capazes de assegurar o rumo, o controle, as regras de polidez, respeito e manutenção da hierarquia.
Essa tensão histórica e universal faz com que a nossa elite, em um primeiro momento, volte-se contra o entrudo, vendo-o como um procedimento inaceitável, caracterizado pela falta de decoro e por traços transgressores ao afrontar os elementos simbólicos da ordem constituída:
Quando chegou entre nós, já no século XVII, vindo de
Portugal, importado, segundo Melo Morais Filho, dos Açores,
teve imediata aceitação por parte do público.
Não havia música nem dança, mas muita bebida e correrias,
perseguições, sujeira e violência. Mereceu, por isso, das
autoridades, desde o início, rígidos alvarás e proibições da
brincadeira pelos problemas que acarretava: pequenas
contusões e muitas cenas vexatórias. (VALENÇA, 1996, 13)
Essas "cenas vexatórias" tornam-se mais nítidas na observação de Maria Clementina Pereira da Cunha:
(...) escravos brincavam de esfarinhar-se como branco.em uma
encenação evidente de sátira social. Cartolas e casacas envergadas por
altivos senhores tornavam-se alvos preferenciais da pilhéria, que
consistia em, literalmente, destruir tais signos de distinção social
entre assuadas e gargalhadas – mesmo sob o risco de intervenção da
polícia. (CUNHA, 2002, 396)
O momento inaugural dos festejos carnavalescos da cidade do Rio de Janeiro é visto com desconforto pelos autores nacionais, à exceção de Manuel Antônio de Almeida que descreve a presença dos ranchos das baianas (dos quais se originaram os ranchos carnavalescos) à frente das procissões numa narrativa picaresca constitutiva de um espaço de inversão e na qual as formas populares não são anatemizadas. Os demais escritores, Joaquim Manuel de Macedo, Laurindo Rabelo, entre outros, expressam nos textos e na ação social uma preocupação de encobrir, reformar, civilizar os excessos críticos, satíricos, anti-hierarquizantes presentes no entrudo. Por isso os intelectuais da segunda metade do século XIX (inclusive Manuel Antônio de Almeida) articulam-se e criam as Grandes Sociedades, processo de europeização, civilização e disciplinamento do carnaval carioca que tenta dar-lhe clima assemelhado ao de Nice e Veneza. Esse projeto de emascaramento, na verdade, corresponde ao desenvolvimento de uma forma assumida pelo entrudo após a fase inicial: ao lado do carnaval de rua, surge um carnaval em casa, doméstico, assegurando a tranquilidade das famílias, protegendo-as do caos citadino e evitando, portanto, a ruptura e a inversão operadas pelas classes populares (2). Desse modo, a Quaresma organiza-se e tenta estabelecer filtros de contenção da energia ilimitada do Carnaval.
Vale ressaltar que, paralelamente a esse Carnaval defensivo, enclausurado no lar, a elite carioca descobre, um pouco antes de engendrar as grandes sociedades, outro caminho para fugir à promiscuidade das ruas, ao convívio forçado com os escravos e demais subalternos, percebido como uma ameaça insuportável das classes perigosas:
Inspirada [a esposa do dono do elegante Hotel Itália, situado na
atual Praça Tiradentes] nos costumes de sua terra natal, essa
italiana organizou em 1835 o primeiro baile de máscaras
o objetivo de atrair a sociedade aos folguedos carnavalescos.
Os bailes do Hotel Itália se tornariam uma constante no
carnaval carioca e seu sucesso estimularia a concorrência. Não
apenas hotéis e clubes se lançariam à nova moda: em 1846 se
inaugura uma tradição que duraria mais de um século: a
realização de grandes bailes carnavalescos nos teatros
cariocas. (VALENÇA, 1996, 21)
As tentativas de enquadramento do caráter espontâneo e livre da festa carnavalesca continuaram depois do surgimento das Grandes Sociedades, fato que comprova a extraordinária dificuldade de domínio das classes hegemônicas sobre as manifestações carnavalescas, pois estas sempre assumem novas formas, modificam outras, fogem ao ordenamento e à razão legislativa do poder.
O surgimento de "cordões" e o desfile do corso foram novas formas de controle concebidas pela elite para esvaziar o potencial transgressor do carnaval.
No corso a elite divertia-se, brincava, enquanto simultaneamente exibia o novo símbolo de poder, o automóvel adornado de mulheres bonitas.
O cordão era uma tentativa de aprisionamento da energia e da liberdade
populares, uma vez que constituía uma evolução dos antigos zé-pereiras, transformados em "sociedades regulares, com estatutos, sede e cumprindo exigências da polícia". (CUNHA, 2002, 399)
A obediência aos imperativos legais, no entanto, jamais subtraiu aos elementos populares a força criativa e o caráter original: "Os blocos e cordões, embalados pelos instrumentos de percussão, cantavam músicas próprias, carregavam um estandarte e eram comandados por um mestre e seu apito". (PIMENTEL, 2002, 30) Surge uma música apropriada ao ritual carnavalesco e uma organização elementar que contém o gene das escolas de samba.
Apesar da interferência de idéias inoculadas pela classe dominante, como a exigência de que o desfile dos ranchos abordasse temas nacionais, tese defendida com êxito por um dos maiores incentivadores dessa forma carnavalesca, o escritor Coelho Neto, as agremiações populares sempre conseguiram superar as limitações impostas pelos poderosos.
Nenhum ato de regulamentação, contudo, consegue enfraquecer o Carnaval carioca que parece ganhar força com o tempo, incorporando de vez o universo negro à tradição momesca. Assim, as formas do rancho, dos blocos e cordões e das grandes sociedades fundem-se nas escolas de samba num processo de sucessivas transformações temporais.
Para a maior manifestação do carnaval carioca confluem a forma de desfile dos ranchos, uma ala que migra do desfile religioso para o profano como prova do estreito relacionamento entre esses dois mundos; a pujança e riqueza dos carros alegóricos das grandes sociedades, emoldurados por estonteantes beldades do teatro de revista e do mundo glamouroso da arte, além de outras belezas sob o olhar da suspeita, todas transformadas com o tempo em caçadoras de mídia; o luxo e o esplendor dos concursos de fantasias criados para glória e gáudio de seleta assistência em salões exclusivos de grandes hotéis ou outros palcos nobres, paradoxalmente transformados em espetáculos populares; a incorporação da cultura acadêmica mediante uma simbiose entre a tradição carnavalesca com artistas plásticos, cenógrafos, coreógrafos, intelectuais e técnicos de diversas áreas, fato que naturaliza a assimilação e o uso de tecnologias no mundo do samba capazes de modificar a tradição do desfile.
A evolução histórica do carnaval do Rio de Janeiro aponta para a existência de períodos diversos. Qualquer que seja a divisão adotada, sempre deverá ser observada a manifestação predominante em cada época. Em sua primeira fase, o entrudo é a expressão máxima. O segundo momento é representado pelo desfile das Grandes Sociedades. O terceiro marca o surgimento e domínio das escolas de samba. Essa terceira fase pode ser subdividida em dois momentos: o da gênese e fortalecimento das escolas, quando ainda convivem com outras formas populares – ranchos, sociedades e frevos; e o da hegemonia absoluta, quando as escolas passam a constituir a única forma de desfile reconhecida.
Os textos de Aníbal Machado nos quais o Carnaval é ficcionalizado correspondem ao momento inicial do desfile das escolas de samba, à sua fase romântica na qual a tradição popular é mais viva e espontânea. As escolas ainda não eram administradas em moldes empresariais e os blocos carnavalescos eram capazes de rivalizar com elas, alguns chegavam até a ser mais famosos e agregavam um número muito maior de foliões. É, ainda, a época do Carnaval de rua, isto é, o povo ia para as ruas do centro da cidade para brincar, pular, divertir-se ou simplesmente assistir aos espetáculos e às performances individuais. Quer vestido normalmente, quer fantasiado, o folião, anônimo ou não, solitário ou em grupo, fazia das ruas da cidade um palco de improviso e invenção de um mundo sem fronteiras e sem distinções.
Esse universo aparece parcialmente representado no conto "A morte da porta-estandarte" (MACHADO, 1985, 223-233) e em um extenso trecho do romance João Ternura (MACHADO, 1978) , obra póstuma, editada em 1965, cuja redação inicial teria ocorrido provavelmente entre 1930 e 1940. Tudo aponta para a inexistência de um intervalo muito grande entre a gestação de ambas; é bem possível, aliás, que tenham nascido de um mesmo processo organizado em modalidades diferentes: conto e romance. O romance parece ter concentrado toda a atenção do autor que levou anos em sua elaboração, a ponto de a obra tornar-se famosa antes de ser publicada tal a expectativa criada em torno do lançamento.
Apesar da proximidade temporal, a diferença no plano da forma revela uma riqueza de observações sobre a festa de Momo.
No conto, o autor constrói uma história linear, porém rica para a compreensão dos nexos existentes entre o mundo colocado fora dos eixos e o império do cotidiano.
No romance, uma espécie de relato memorialistico-fragmentário e bildungsroman-lírico, o carnaval, conquanto não seja o tema, ocupa um lugar especial e a narrativa de Aníbal Machado assume uma conformação ditada pelo olhar festivo e transgressor do folião.
Carnaval e morte
Há alguns elementos que chamam a atenção já nos parágrafos iniciais do conto “A morte da porta-estandarte”: a referência aos espaços que funcionam como palco para a festa maior da cidade – Mangue, Central, Praça Onze – e aqueles onde vivem os sambistas – Bangu e Madureira; o anonimato do sambista, mantido até o final da narrativa, símbolo de um conjunto de atributos que o insere na galeria de tipos, sem alcançar a complexidade de uma personagem; e a expressão “seu cordão”, forma linguística que aponta para uma forma carnavalesca ainda marcada pela intervenção autoritária das elites cariocas no início século XX, ávidas em modernizar a cidade, ainda que ao preço da expulsão dos habitantes do centro, e regulamentar as atividades culturais das classes populares.
Existe algo estranho no olhar do protagonista negro, estranheza acentuada nos parágrafos seguintes. Esse olhar ansioso, sofredor, tenso, não corresponde ao olhar carnavalesco. Talvez seja possível pensar este como aquele que absorve, suga o mundo e todas as formas de prazer nele instaladas. Só percebe as formas do sensível. Não revela outro estado de espírito a não ser o brilho intenso da embriaguez, da luxúria e da alegria.
Vemos então o sambista, natural ao meio – mais do que membro do bloco, é também o autor do samba, posição que lhe atribui um status particular –, apresentar-se deslocado: “Por que não se incorporou ao seu bloco? E por que não está dançando? Há pouco não passou uma morena que o puxou pelo braço, convidando-o?” (MACHADO, 1985, 223)
Se o ciúme está na raiz desse deslocamento, a sua motivação prende-se à natureza da festa, mais precisamente à dissolução do privado no público, uma vez que o corpo da amada passa a pertencer à multidão. A mulher escapa ao domínio do homem, metonimizado no olhar impotente.
O corpo da amada é apenas uma promessa "aquele corpo que já lhe foi prometido, será dele mais tarde..." (MACHADO, 1985, 223) E é em função dele que o negro movimenta-se no meio da multidão como um intruso, temendo não se apresentar mais com as roupagens do cotidiano, por não ser percebido como componente do processo de hierarquização que o converte em peça de produção (através da metonímia redutora "mão-de-obra", expressão reveladora do esvaziamento do sujeito), o corpo pode ser visto como uma forma de prazer em si mesmo.
A fantasia, em vez de escondê-lo, exibe-o despido das máscaras do cotidiano – a seriedade e a produtividade, principalmente – que neutralizam o olhar e subtraem a sensualidade e a beleza originais. A fantasia, portanto, revela e provoca, transfigura os seres, tornando-os objetos de desejo ao expressarem as formas anelantes recalcadas no plano do cotidiano. O corpo desperta os sentimentos mais primitivos e descontrolados de posse, contudo, paradoxalmente, tudo – durante o tempo do carnaval – permanece inacessível a qualquer forma de controle, fora de domínio individual.
A alienação modela um corpo instrumental, sem autonomia de movimentos, aprisionado ao processo produtivo da sociedade. A relação de corpo com a função de desempenho social destrói a singularidade física do indivíduo. Os seres são descorporificados e lidos como papéis sociais, funções, ofícios; flagrados no campo das relações sociais dentro do qual o prazer é um instrumento de manutenção e perpetuação da ordem constituída, no máximo uma área de alívio de tensões na qual a produção recupera as energias dispendidas; é o prazer-mercadoria. Por isso a prostituição, historicamente estigmatizada em guetos urbanos, também é uma província da cidade. Apesar de ser legal e hipocritamente vergastada por legisladores e moralistas, corresponde a um território regulamentador das tensões, carências e necessidades afetivas, culturais e sexuais dos habitantes da pólis. (3)
No carnaval o corpo recupera a liberdade perdida e pode ser exibido sem a necessidade de ser traduzido em valor. Nu, seminu ou vestido (tanto faz) está fora, ainda que provisoriamente, da cadeia produtiva, não é um meio através do qual se gera valor e riqueza. Aqui o valor é o próprio corpo, o prazer procurado é um prazer-sem-fim, advém de sua autonomia e não da satisfação que acrescenta a outro indivíduo: é um puro-prazer.
A forma de reconhecimento é coletiva. Não há uma exibição para um olhar determinado, pois este se transforma no olhar da multidão. Daí a inquietação do sambista no início do conto: a perda da amada significa a suspensão do campo de visibilidade no qual ela é representada costumeiramente. Ou seja, no carnaval ele não consegue localizar a sua Rosinha, pois a amada transforma-se em porta-estandarte, passa a pertencer a uma realidade que rompe os estreitos limites do convívio doméstico e rotineiro ao apontar para a ruptura dos códigos de reconhecimento e submissão adotado pelo sambista – traduzidos em uma ideologia opressora quebrada pela inclusão da mulher no trajeto carnavalesco. Há, portanto, a ruptura de um código conservador e a mulher conquista um espaço de liberdade. E morre por isso.
O conflito sentimental do sambista reflete a ideologia patriarcal da sociedade brasileira, ainda hegemônica na primeira metade século XX, a ponto de ser internalizada pelo mais animado operário nas greves, animação que deixa transparecer uma certa consciência de classe e desautoriza a associação preconceituosa muitas vezes efetuada entre o samba e a ausência de participação política. A assimilação desse código conservador comprova que as ideologias fundamentadas na exacerbação dos valores inerentes ao sistema produtivo igualaram-se, seja à direita, seja à esquerda, na repressão às formas marginais à totemização da produção como metáfora da existência: produz, logo existe. O sofrimento do negro é uma projeção simbólica da tensa relação entre o pragmatismo da sociedade capitalista – presente também nas economias planificadas – e as forças rebeldes a qualquer tentativa de instrumentalização.
Cabe à mulher ser submissa e obedecer à vontade do operário, em conformidade com a dimensão complementar de sua atividade de manutendora e duplicadora de mão-de-obra, papel periférico que lhe é reservado mesmo no interior das organizações políticas mais avançadas do início do século XX, como partidos políticos e sindicatos.Essa visão, ora arrependida e complacente, ora violenta e vingativa, aparece explicitada em alguns momentos do conto: "...não devia proibi-la de sair" (MACHADO, 1985, 223); "Se Rosinha desobedecer e vier à Praça não faz mal. Está também disposto a não se importar" (MACHADO, 1985, 226); "...não seria mal que caísse uma tempestade (...) que estragasse o vestido dela." (MACHADO, 1985, 226)
O machismo do negro significa a percepção do caráter emancipador do carnaval. O acontecimento que ele não pode admitir é a conquista da igualdade, ainda que dentro de limites temporais bem estreitos. Mais do que um deslocamento individual, a estranheza de sua posição assinala uma modificação no plano social e é exatamente isso que o incomoda: a perda de seu domínio territorial.
A ideologia machista caracteriza-se não por excluir a mulher do carnaval, mas por preservar nele a funcionalidade da mulher-objeto, entronizada no mercado como prazer-mercadoria, e por reservar à mulher-parceira a participação apenas em manifestações controladas. Fora do clube e do ambiente doméstico, livre da vigilância da família e do homem, a mulher torna-se degradada, perdida, vulgar.
O símbolo da independência da heroína da narrativa não é o estandarte que carrega, mas o vestido que a transporta para outra dimensão. É ele que desperta todo o desconforto do negro: "Será medo do vestido com que ela deve sair hoje, aquele vestido em que fica maravilhosa, 'rainha da cabeça aos pés'." (MACHADO, 1985, 224) Mais adiante o operário apaixonado torna a indagar: "Ela virá com aquele vestido?" (MACHADO, 1985, 225)
É de posse desse traje que a simples operária de Bangu pode deixar a todos de cabeça virada. Por isso seu amado deseja que um temporal venha a danificá-lo e, numa intensificação de sua angústia, chega a odiar o Carnaval. Não é à toa que o narrador deixa-o sem nome, identificando-o apenas como "negro".
O vestido funciona como metáfora da transformação e da perda. Mais do que a inversão de plebéia à rainha, leitura carnavalesca da história de Cinderela, marca a passagem da condição servil, de ser que vive sob a luz de outro, à criatura emancipada, autônoma, plena, dotada de luz própria, capaz de traçar o próprio percurso. No vestido, Rosinha renasce. Ele opera a conversão da forma alienada do corpo, instrumento de sobrevivência, em forma consciente do corpo, instrumento de afirmação e prazer pessoais.
O uso da vestimenta especial de porta-estandarte é interditado, já que o trajeto de sua evolução corresponde a um percurso transgressor. Ao vestir-se, Rosinha rompe o código que pretende circunscrevê-la em uma existência redutora, simples projeção das necessidades do macho, e assume toda a plenitude de ser mulher. O desfile assegura-lhe grandeza análoga a de qualquer sambista masculino, coloca-a ao lado do amado que, aprisionada às concepções dominantes em sua época, só pode enxergá-la de cima, como mestre e senhor.
Para o sambista, por outro lado, a ideologia dominante já é algo internalizado, um processo de naturalização de atitudes, comportamentos e idéias cuja origem não se consegue precisar. Por essa razão espera encontrar Rosinha nos pontos que ele designa, desenhando a geo- grafia dos passos femininos num mapa de controle. O sambista, ao contrário, tem todas as chaves de inclusão no mundo do prazer. Faz parte do universo de regras de conduta masculina seguir "a rapariga do momento" (MACHADO, 1985, 223) e ceder às solicitações lascivas das mulatas: "As mulatas passam rente, cheias de dengue; sorriem, dizem palavras. Hoje ele não topa..." (MACHADO, 1985, 226)
Isso comprova que o carnaval não é apenas um espaço mítico, instaurador de uma inversão absoluta de atitudes, conceitos e valores, mas também um território tensões, no qual, sob o primado da cultura oficial circulam representações dessa forma de domínio. A concepção de um carnaval mítico, símbolo de transformação universal e tempo de inversão absoluta, é uma construção ingênua, incapaz de observar a sua natureza plural, a sua formação por camadas de elementos oriundos de configurações diversas. No palimpsesto de Momo há a presença de inscrições provenientes de culturas diversas, inclusive da cultura oficial.
A narrativa de Aníbal Machado incorpora as contradições que alimentam os festejos carnavalescos. O erotismo presente no conto não traduz somente a entronização de um caráter libertário, já que reflete também um olhar machista que filtra a mulher pela ótica do desejo de posse. Reconstrói a figura feminina nos mesmos moldes com os quais é representada na estrutura social fora da folia, na qual a mulher é reduzida a objeto de prazer. Essa reconstrução organiza-se através de estereótipos sobre as mulatas e as negras. É o olhar construído pelos processos alienadores e alienantes do cotidiano, com suas camadas de automatismo e preconceito, que inculca leviandade às morenas que brincam no meio da multidão e é capaz de atribuir o movimento dos estandartes a mulatas e a negras fora do campo de visão, distribuindo, metonimicamente, virtudes físicas e sexuais a ambas ao permitir a relação entre os movimentos da dança e do sexo: por isso as mulatas são um colosso e as negras possuem um ritmo frenético.
O processo de estereotipação, no entanto, alcança a sua intensidade máxima na cena descritiva em que aparece o olhar estrangeiro, representado por turistas ingleses. Assume a proporção de um choque cultural. A incapacidade de leitura significa a não percepção das culturas não-européias como formas dignas de reconhecimento. Daí provêm os qualificativos de exótico, primitivo, excêntrico, pitoresco com os quais as culturas centrais, na verdade, deslegitimam a cultura de outros povos ao adotarem uma postura de reconhecimento condescendente: as culturas mais refinadas aceitam as mais simples apenas como diversão.
As reações dos turistas, mais do que cômicas, são grotescas, como pode ser observado na recomendação dada por uma mãe inglesa à filha – "Não chegue muito perto, minha filha, que eles avançam..." (MACHADO, 1985, 227) – e por uma pergunta reveladora de curiosidade medieval feita pela filha – "Mas eles são ferozes?" (MACHADO, 1985, 227)
A atração pelo exótico revela outro estereótipo: a atração física do europeu pelo negro. A excitação, a perturbação, a atração pelo negro revela a presença de uma comportamento senhorial, marcado pela transformação do negro em objeto sexual, prestador de serviços de liberação de tensões e carências sexuais. É mais uma marca do prazer-mercadoria no rosto multifacetado do carnaval.
Entre a notícia da tragédia e a descrição da morte aparece uma cena intercalada na narrativa de Aníbal Machado, nela as mães expressam desespero pela perda hipotética das filhas. Os relatos de mães anônimas forma uma voz coletiva que tenta traduzir o caráter polifônico do carnaval. O movimento das mães, o girar incessante à procura de notícias de suas filhas, a alternância entre mães diversas, a presença materna no espaço carnavalesco, onde também se incluem como folionas, seu clamor coletivo, são traços que podem ser traduzidos como representação narrativa de uma ala de baianas no interior do conto, ao mesmo tempo em que formam um canto angustiado e uníssono a exercer um papel semelhante ao do coro nas tragédias gregas. Destarte, podemos corroborar as palavras de M. Cavalcanti Proença sobre o autor: "Embora nacional, até mesmo mineira, a obra de Aníbal Machado está embebida de universalismo e, se necessário restringir o conceito, diremos que esse universal vai da claridade francesa à inteligência da latinidade." (1985, XI)
A preocupação das mães assinala ainda a presença da esfera doméstica em confronto com o carnaval. A relação conflituosa entre a casa (controle e autoritarismo) e a rua (descontrole e massificação) inscreve-se nas linhas da narrativa. A rua corresponde a um espaço hobbesiano – todos estão em luta contra todos. As filhas no carnaval rompem os protocolos familiares, saem de visibilidade, ingressam numa realidade na qual a casa não exerce o menor domínio. Dessa maneira, as filhas morrem (no lar) e nascem (no mundo). Ainda que efemeramente atualizam o ritual de morte e nascimento. As mães reconhecem o desamparo das filhas, pois "na rua é preciso estar atento para não violar hierarquias não-sabidas ou não-percebidas (...) a regra básica do universo da Rua é o engano, a decepção e a malandragem". (MATTA, 1980, 70)
"A morte da porta-estandarte" é uma narrativa portadora de significados que vão além daqueles emanados das ações das personagens. A porta-estandarte não é uma desfilante individualizada; é o único membro das agremiações carnavalescas responsável pela inscrição de um signo do tempo histórico – as insígnias de cada agrupamento – no tempo carnavalesco, marcado pela suspensão do fluxo temporal: "O tempo do Carnaval é cósmico e cíclico, remetendo os participantes do ritual para fora do contexto brasileiro, colocando-os em contato com o mundo do sagrado, do divino ou do sobrenatural". (MATTA, 1980, 43)
Não era raro no passado, quando havia conflitos entre os cordões, a tentativa de tomada da bandeira do grupo adverso. O brasão de cada bloco ou cordão costumava ser defendido por praticantes de capoeira. A rivalidade entre as diversas comunidades do Rio de Janeiro surgia sob a forma de tentativa de conquista da bandeira de grupos rivais.
A presença dos capoeiras não ocorria apenas durante a época carnavalesca, era uma característica de todos festejos cariocas: "Por todo o século XIX, na cidade do Rio de Janeiro, uma das presenças mais renitentes nos momentos das grandes festividades públicas nas ruas, era a das chamadas 'maltas de capoeiras'." (SOARES, 2003, 285)
Ao comparar o negro com os navais e os estivadores de maneira positiva – "Os navais não são mais fortes que ele, nem os estivadores..." (MACHADO, 1985, 223-224) –, o narrador aponta para a sobrevivência dessas escaramuças, responsáveis pela união dos movimentos da capoeira aos do samba.
Observe-se ainda que o crime é perpetrado com o uso de uma faca, ou seja, de uma arma branca. A faca atualiza a navalha historicamente usada pelos capoeiras nas batalhas carnavalescas do passado. As navalhas, costumeiramente escondidas nos leques usados pelos balizas, tornaram-se símbolo agressivo do malandro, a imagem estereotipada do carnavalesco das classes populares.
A força do negro, necessária para a defesa da amada e para romper a multidão – "O negro fura a massa, coloca a sua figura enorme em situação de poder ficar bem perto." (MACHADO, 1985, 225) –, permite o estabelecimento de um nexo temporal entre ele e os balizas dos desfiles de rancho, capazes de manobras em defesa do pavilhão das associações. Os capoeiras assumem posteriormente as posições ocupadas pelos balizas e daí, no decorrer dos desfiles, surge a figura majestosa do mestre-sala.
Na cena final, a investida do negro representa tal sobrevivência de modo trágico. Ao mesmo tempo, essa movimentação intensa em torno do corpo da porta-estandarte transforma-o em um autêntico mestre sala. Através da morte da porta-estandarte, o casal assume um plano igualitário. O par está completo.
Carnaval narrativo
Se no conto "A morte da porta-estandarte" o narrador dá contornos trágicos às figuras carnavalescas, no romance "João Ternura" os festejos momescos surgem retratados de modo lírico, irônico, onírico e festivo, numa espécie de educação sentimental. Não ocupam o lugar central da narrativa, por si só descentrada, constituída por um conjunto de quadros avulsos organizados num processo não-linear. Contudo, é reservado nesse relato existencial um longo espaço (cerca de quarenta páginas) ao carnaval, destacando-o como momento fundamental na formação da visão de mundo da personagem que dá título ao romance. Como decorrência da extraordinária importância concedida ao carnaval, a narrativa exibe as marcas dessa influência.
Sobre o romance vale ressaltar a análise do crítico Alexandre Eulálio: "O grande encanto dessa narrativa firma-se no profundo humor poético do texto, sugestivo e pessoal. O andamento rápido da ação, dividida entre instantâneos e episódios extensos, existe sempre numa atmosfera onírica, que tudo encobre na obra". (1993, 109)
Em outra passagem, o mesmo autor afirma: "Peculiar ao humorismo de Aníbal Machado é a sentimentalidade intensa que, reprimida, transforma-se em propensão para o satírico e o zombeteiro. Anexando diferentes espécies de realidade, ela se compraz no grotesto tanto quanto este permite confrontar a realidade pobre com a aparência pomposa e falsa." (1993, 111)
A onisciência do narrador em terceira pessoa é relativizada por uma estrutura é arquitetada com a junção de cenas diversas, embora organizadas de modo linear uma vez que obedecem ao andamento cronológico dos acontecimentos. A possibilidade de construir ilhas narrativas de maior ou menor extensão, de modo solto, sem obediência a um enredo, apesar de sua inserção do plano de sequências temporais, dá à obra um caráter moderno, revelando-a como herdeira de técnicas desenvolvidas por nossos prosadores modernistas, particularmente por Oswald de Andrade.
A montagem da macroestrutura textual mediante a sua pulverização em micronarrativas dispersas por homologia à natureza constitutiva da memória existencial que reorganiza os dados biográficos de João Ternura da Silva (na verdade, o alter ego do próprio Aníbal Machado) possibilita interpretar essas microestruturas como alas narrrativas das escolas de samba..
A narrativa do romance não deve ser considerada como um processo de montagem de um puzzle, portanto. A sua configuração textual não resulta de uma arquitetura radicada numa combinatória de base lógica, cerebral, conceitual, mas da construção dos significados numa totalização lírica dos flashes memorialísticos que agenciam uma tentativa de registro literário da formação sentimental do protagonista.
O tratamento poético dado à linguagem explica, parcialmente, o título original – João Ternura, lírico e vulgar. Os adjetivos retirados do título persistem no centro do romance: no terreno de uma espécie de refugo do cotidiano onde o narrador flagra o percurso do protagonista entre o sinuoso e a contramão; e uma apreensão sempre poética, sempre desvelando o real sob uma ótica que derrama sensibilidade sobre os acontecimentos e as personagens sem, no entanto, cair no sentimentalismo piegas que anula esteticamente qualquer lirismo.
Como aqui só interessa a análise da extensa passagem referente ao carnaval, agora só serão abordados os elementos que forem considerados relevantes no desenho da cena carnavalesca.
O descrição do carnaval do Rio de Janeiro começa no Livro V e termina no Livro VI, ou seja, na última parte. (4) Consequentemente, não é apenas a extensão, mas também a posição que o relato ocupa no interior do romance que assinala a sua distinção. Sua perspectiva é traçada por um João Ternura adulto, em plena posse de sua personalidade, capaz de vivenciá-lo como experiência real e como desejo existencial.
O carnaval entra em cena através de um signo sonoro – "um toque de clarim" (MACHADO, 1978, 156). A música marca a abertura da solenidade (observe-se que o clarim é um instrumento apropriado para assinalar o início do cerimonial, ao mesmo tempo em que confere um ar majestoso ao evento) e anuncia a proximidade da suspensão temporal do plano do cotidiano.
A percepção de sua proximidade remete a noção do tempo cíclico, do ritual que atualiza mediante o eterno retorno, as velhas práticas de morte e ressurreição, de renovação da existência. Nas palavras de Bakthin:
As festividades sempre têm relação marcada com o tempo.
Na sua base, encontra-se constantemente uma concepção
determinada e concreta do tempo natural (cósmico), biológico
e histórico. Além disso, as festividades, em todas as suas fases
históricas, ligaram-se a períodos de crise, de transtorno, na vida
da natureza, da sociedade e do homem. A morte e a
ressurreição, a alternância e a renovação constituíram sempre os
aspectos marcantes da festa. E são precisamente esses momento
momentos – nas formas concretas das diferentes festas – que
criaram o clima típico da festa. (BAKHTIN, 1987, 8)
Por outro lado, há um tempo intermediário sempre relegado a um plano secundário, ora apreendido na dimensão histórica, ora ignorado: é o tempo da preparação, um tempo híbrido, pois significa a permanência do tempo cíclico no tempo histórico. Talvez haja não apenas tempos diversos, mas uma natureza temporal múltipla, capaz de assumir formas diversas simultaneamente, um tempo quântico, e o devir – sua apreensão pelo campo da percepção humana e da cognoscibilidade – seja apenas fração de sua natureza que filtra a sua passagem ou duração nos seres.
Esse tempo de preparação, esse espaço no tempo histórico em que formas carnavalescas são organizadas, é claramente marcado no romance. Corresponde ao final do Livro V e apresenta algumas características importantes para a compreensão da festa na cidade do Rio de Janeiro.
Os sons que revelam a aproximação dos dias da folia e que ganham intensidade e se propagam pelos bairros e subúrbios revelam o caráter subterrâneo do mundo carnavalesco, revelam a inexistência de fronteiras rígidas no tempo, pois explicitam a presença de elementos carnavalescos, que só adquirem plenitude durante o desfile, em pleno tempo do cotidiano. Os sons percebidos pelo protagonista provêm dos ensaios, exemplo bem expressivo de que a espontaneidade, o improviso, a brincadeira, a festa, a dança, o canto, tudo o que ocorre no carnaval também acontece fora do carnaval.
O ritual carnavalesco exige sacerdotes: os carnavalescos que estabelecem as conexões entre o tempo suspenso vivenciado em um desfile e o tempo histórico dos desfiles anteriores. As quadras das escolas de samba, os clubes e outras agremiações carnavalescas funcionam como os templos dessa prática festiva e mágica. Esse tempo de preparativos pode ser denominado tempo do Barracão.
O olhar do narrador revela-se atento aos preparativos para a festa:
Dentro dos clubes os magos do carnaval discutiam os planos.
A população fazia economia e acelerava as providências.
As costureiras costuravam e a pele das mulheres arrepiava-se
toda.
As noites da Lapa ficaram mais noites. (MACHADO, 1978,
156)
O ritmo introdutório ao carnaval molda um ambiente que opera a transição entre o plano do cotidiano e um mundo mágico.
A permanência de elementos grotescos, inerentes à ambientação carnavalesca, aparece descrita na cena inicial. Trata-se do caso do desaparecimento dos gatos, cujo pêlo é utilizado para a forração dos tamborins. O fato, já incorporado à mitologia da festa, coloca em cena a figura do malandro, representante sinuoso dos excluídos, e sua luta característica, a capoeira. Na verdade, a sobrevivência das maltas de capoeiras, que sempre participaram de todas as celebrações coletivas realizadas na cidade do Rio de Janeiro (exibindo seu poderio, inclusive, na esfera política), é representada não somente pelos movimentos do mestre sala, mas também pelos passos incorporados aos movimentos do samba.
Em outros momentos, as preocupações são mais prosaicas. As mais angustiadas exprimem receio de não realização do carnaval ou com o a possibilidade de não obtenção de êxito pessoal durante o festejo. À luz dessas inquietações, o acompanhamento das previsões meteorológicas adquire um grande interesse, torna-se um dado imprescindível à programação coletiva e individual. O mau tempo, por conseguinte, é um castigo dos deuses, uma punição pelos pecados, uma prova de que os excessos e misérias do cotidiano foram tão desproporcionais que será negada à humanidade a licença anual de alguns dias de caos e júbilo. A preocupação com o sucesso individual pode ser comprovada com a consulta a todas as formas de adivinhação, representadas no romance por consulta a uma cartomante. Por ter o carnaval uma caráter imprevisível e anárquico, o folião procura assegurar-se de que na festa verá cumprida toda a expectativa de realização plena.
Esses preparativos vêm entre acenos de felicidade e promessas de um mundo extraordinário: “Vais ver como a cidade treme fora dos gonzos.” A cidade transforma-se em uma outra dimensão da existência: o delírio – associado à sensualidade de corpos semidespidos e à liberação dos gestos da carga de automatismo.
Na narrativa de Aníbal Machado, há a irrupção de múltiplas vozes, além da voz do narrador e a do protagonista. Cada trecho possui uma rubrica que funciona de modo similar ao de nome de capítulo. Mesmo os quadros compostos por uma frase curta obedecem a esse princípio organizacional. Se a hierarquia discursiva não é abolida, ganha uma multiplicidade de focos, como se o relato fosse uma produção coletiva de caráter polifônico concebido de maneira a reproduzir o entrecruzamento de vozes anônimas constitutivas da linguagem carnavalesca.
Em João Ternura a técnica narrativa dá a alguns quadros autonomia, ao propiciar-lhes leitura independente do conjunto de microtextos. Apesar disso, todas as vozes continuam subordinadas a uma voz maior – a do narrador – que empresta a todas as outras as máscaras de seu discurso: o lirismo difuso, a distorção surrealista, a linguagem irônica e o olhar líbertário.
O carnaval, propriamente dito, surge no romance por intermédio de uma frase incendiária: “– Abaixo a lógica! ” (MACHADO, 1978, 161) É uma verdadeira declaração de guerra ao bom senso, à razão instrumental, ao protocolo do cotidiano. Proferida por um indivíduo fora de sua condição natural – um bêbado – em um lugar secundário – um beco, exibe as marcas de um reino excluído, transformadas em signos de não-valor, formas insignificantes do cotidiano. Portanto, seu caráter transgressor é radical. Não é à toa que a cena seguinte, na qual João Ternura mergulha na dança, é denominada curto-circuito: apaga-se o plano da racionalidade, acende-se o campo das sensações corpóreas.
Após o grito de guerra inaugural, surge uma prece – “Oração da Praça Quinze” –, na verdade uma mistura de pedido de compreensão e proteção divinas (o orador dirige-se com grande familiaridade ao Cristo, pede-lhe que feche bem os olhos e só os abra na quarta-feira de cinzas), de justificativa (argumenta que os excessos devem ser compreendidos como um prêmio aos sofrimentos de todos os outros dias) e de exaltação ao samba, ao padroeiro da cidade, ao amor e à democracia convulsiva.
Aparentemente trata-se de mais um recurso estilístico empregado pelos modernistas. Insulada no universo carnavalesco, entretanto, a oração atualiza formas medievais de literatura paródica e semiparódica nas quais a cultura popular criticava o discurso da cultura oficial.
Se a Oração da Praça Quinze não toma por modelo uma forma canônica, parodiando-a diretamente, a sua estrutura revela ruptura com o código solene do discurso religioso, uma vez que dirige-se a Cristo (não ao Cristo transcendente, mas a sua versão postalizada de estátua símbolo do Rio de Janeiro), ordenando-lhe gestos e intenções, adota uma perspectiva intimista anuladora de qualquer relação hierárquica, além de disseminar no enunciado críticas à estrutura social, aos problemas econômicos e ao comportamento popular. Por essa última característica, formula uma espécie de síntese do brasileiro.
O orador anônimo, como se estivesse investido na condição de voz oficial do carnaval, faz um convite aberto a todos:
Esculhambatrizes do Mangue, curradores da Zona Sul,
esmolambados das favelas – vinde. Estudantes, caixeiros,
punguistas, mulatas de bunda barroca, maconheiros, cafajestes,
marafas, mandingueiros, bambas do morro, empresários,
funcionários, ferroviários, negocistas, vigaristas, e demais
ários e istas e pederastas – chegou a hora! E por que não
vocês também, esquizofrênicos e melancólicos, enfarados da
vida? Para espiar ao menos... Velhos, paralíticos, cardíacos,
barnabés, balzaquianas e marechais de pijama – todos para a
rua! E vocês também, debutantezinhas de pés mimosos e
curvas suavinas! Mas não exagerem nos remelexos que o
muito rebolar compromete a alma. (MACHADO, 1978, 162)
Após esse discurso invocatório, ‘oficial’ aos olhos do protagonista, outro orador entra em ação e produz um discurso hilário, bizarro, ilógico. A sua absoluta falta de sentido significa que a festa começou de fato, pois a própria linguagem é tomada como objeto de sátira, profanada, ridicularizada, através da supressão dos nexos de uma terminologia culta e sofisticada, cuja desarticulação no espaço carnavalesco produz um efeito cômico:
(...) eu estava apenas fundamentalando. Beatrização do
prostituário, por quê? Todaviísmos... Freud chicoteado pelos
parentes? Flagelação inoperante... E por que não a
maconhificação das consciências, uma vez que ao radar
perceptivo escapa o intravermelho da finalística? Mas nunca,
ó meu povo, a nadificação subjacente na prolongadez
de filas e filas desesperançosas quando a própria ondulância
genética reverte em vivências configuradoras da
infraestrutura. Todaviísmos, repito... ( MACHADO, 1978, 164-
165)
O carnaval manifesta-se também na linguagem: nas piadas, trocadilhos, obscenidades, excomunhões, xingamentos, paródias, construções sem nexo, falas invertidas (adultos falam como crianças etc.). Ou seja, tudo aquilo que é reprimido linguisticamente pode aparecer no período momesco ao lado dos códigos canônicos.
A posição do tribuno desse amontoado de absurdos, na garupa de uma estátua do General Osório, já revela o tom de pândega retórica como pôde ser observado na passagem transcrita acima.
Todos os discursos são permitidos, embora nenhum seja aceito. Por essa razão os dois primeiros oradores são lançados ao mar.
Não é de se estranhar, destarte, a manifestação discursiva de recalques e ressentimentos, uma vez que o folião, livre de todas as amarras, pode exprimir-se sem rodeios, sem o limites da sujeição à cidadania. A radical liberdade carnavalesca, todavia, anula a violência de qualquer denúncia, por mais contundente e explosiva que seja, dissolvendo-a no clima de júbilo e riso generalizado. Por essa razão, os apelos esquerdistas de um anônimo radicalizado, exortando a multidão a livrar-se de vários tipos negativos – “os escroques de alta patente, os latifundiários, os picaretas, os sanguessugas do povo. (...) os tapeadores, os negocistas, os fascistas, os palhaços do civismo, os tubarões dos lucros extraordinários!” (MACHADO, 1978, 165) – perdem toda o vigor revolucionário e não encontram eco: são lidos como expressão carnavalesca.
A continuidade dos mestres da eloquência popular é assegurada por outra voz anônima, cuja proposta consiste em salvar o Brasil por intermédio da valorização da pesca. Apesar de conter um plano lógico, a solução pelo peixe também se insere no clima de galhofa e ironia carnavalesca, principalmente em função do desfecho estapafúrdio: a platéia exige, em clima caricato, a distribuição de tarrafas, anzóis e outros aparelhos de pesca por parte do governo.
Por vezes surgem microdiscursos, sintéticos, críticos e ecológicos, reveladores de que, se a realidade carnavalesca subtrai-lhes o rigor, não suprime totalmente a ideologia nostálgica e regressiva que os alimenta: “– Senhores, mais vacas e menos chaminés! Chega de arranha-céus! Chega de geometrias! Chega de asfixia!” (MACHADO, 1978, 167)
Os discursos prosseguem num plano rápido, retratando a intensidade e a velocidade dos movimentos carnavalescos. Dentro dessa perspectiva, não causam estranheza as palavras proferidas por um indivíduo vestido em um amplo paletó, dizendo-se um fantasma residente nos arquivos do Instituto Histórico. O enunciado denota uma leitura crítica da historiografia brasileira. Os personagens históricos são flagrados em cenas de um cotidiano que esvazia a monumentalidade com a qual são revestidos. É uma releitura popular da história: em vez de um D. João VI responsável por atos progressistas no Brasil, retrata monarca no ato de chupar uma coxa de galinha; D. Pedro I não é exaltado como o heróico autor da independência, porém como um Don Juan tropical.
Um cômico patético impregna a cena do próximo orador. Sem conseguir se fazer ouvir no meio da algazarra, começa a xingar a todos. A platéia, um público majoritariamente feminino, exulta com o comportamento do tribuno devido a extrema beleza do rapaz, ao mesmo tempo em que não manifesta o menor interesse por suas palavras. Quanto maior é a intensidade dos impropérios, maior é o entusiasmo do público que reage furiosamente à iniciativa desastrada de alguns homens de suspender a fúria declamatória do bonitão.
À semelhança de A morte da porta-estandarte, concepções estereotipadas sobre o carnaval também circulam no meio dessas vozes que montam o mosaico carnavalesco. No agradecimento de um professor de uma universidade norte-americana, a mulata é exibida como um dos estereótipos através dos quais o Brasil é percebido. Ele agradece aos brasileiros pela invenção da mulata. A visão caricata é reforçada pela presença, na platéia, de portugueses entusiasmados com suas companheiras mulatas – representação estereotipada do mito de democracia racial em terras tupiniquins tão recorrente na obra de Gilberto Freyre.
A narrativa não trabalha apenas com a exposição oral, tanto que João Ternura é presenteado com um bem humorado documento de protesto, redigido por fetos: é o Manifesto dos Não-Nascidos. Inserido no romance como nota de rodapé, o texto configura um relato à parte, destacado, logo expressa o deslocamento da escrita em tempos de folia, além de, numa perspectiva irônica, representar uma sátira velada à proliferação e ao esvaziamento dessa modalidade textual, usada à exaustão por modernistas, vanguardistas e políticos brasileiros.
Os comícios farsescos reaparecem na Cinelândia. Dessa vez Josias, um dos interlocutores do protagonista durante a folia (juntamente com Arosca, Manuel, Matias e Pepão), no vértice de uma pirâmide humana, lê um telegrama enviado ao futuro. O teor da mensagem explicita uma clara consciência social, alinhada às idéias progressistas. À semelhança do Manifesto dos Não-Nascidos, encaixa-se no romance em uma extensa nota de rodapé, numa rígida delimitação denunciadora de seu caráter deslocado no universo carnavalesco. Reforça, mediante esse recurso estilístico, a compreensão de que a linguagem da folia é essencialmente sonora; a escrita só adquire valor se lida em voz alta ou cantada. Consequentemente, a sua multiplicação em folhas impressas fere os princípios da festa ao desviar o riso para o plano da consciência, ou seja, anula-o: a única interdição efetiva do carnaval. (5) Torna-se um ato subversivo não só da sociedade, porém do próprio mundo carnavalesco. Isso explica o sinal de perigo e a intervenção da polícia.
Não existe lugar para declaração de princípios nem literatura programática durante o carnaval. É um momento impróprio para fazer propaganda de idéias, por melhores que sejam as intenções. O telegrama só poderia surtir efeito em outra ocasião, em que pese todo o conteúdo politicamente correto:
Estamos fazendo força para te alcançar stop demora motivo
últimas resistências antiga estrutura social bem como safadeza
má-fé demagogia stop índice boçalidade ainda impressionante
stop impossível eliminação total imbecis stop prazer constatar
bons resultados campanha contra superstições preconceitos que
retardam nosso progresso stop condenamos exercício abusivo
da inteligência pela inteligência como desintegradora caráter
além de vício masturbatório stop (...). (MACHADO, 1978, 177)
O último momento do primado da oratória realiza-se através da intervenção de mais um tribuno anônimo, segundo o qual o problema crucial do Brasil é o fim do silêncio. Seu discurso assemelha-se a um comício caricato no qual é apresentado o programa satírico de uma campanha farsesca. Toda a sua proposta pode ser resumida em uma frase: “Eu proponho, para o próximo verão, um quebra-quebra geral de todos os alto-falantes do Brasil”.(MACHADO, 1978, 180) O orador faz uma crítica direta à influência do rádio, principalmente, e da televisão em nossa cultura. É uma voz do passado, insatisfeita com o progresso. Esse traço saudosista, aliás, é recorrente no universo do carnaval, sempre dando uma dimensão mítica e paradisíaca aos carnavais dos velhos tempos.
As outras vozes produzem enunciados presos ao enredo em mosaico da obra, não desempenham a função marcadamente retórica dos quadros destacados na análise aqui empreendida, por isso não foram levadas em consideração, apesar da riqueza apresentada sob outra ótica, assim como também foram descartados dois quadros importantes: aquele em que pontifica o inacreditável personagem Deus e o da surrealista chuva de pastéis.
Após a leitura da obra, surgem algumas questões inevitáveis: por que o carnaval é ficcionalizado como um momento de proliferação de discurso? Qual é a relação entre carnaval e retórica? Tentar entendê-las é aumentar a compreensão sobre a maior festa popular do Rio de Janeiro.
Embora professe uma visão ingênua, chapliniana, buscando compreensão onde só existe farsa, natural a quem está sendo introduzido no reino de momo, João Ternura revela perplexidade com os excessos oratórios.
Na primeira tentativa de compreensão, em uma conversa com Manuel e Arosca, não se chega a nenhuma razão conclusiva. Aliás, a última frase do diálogo tanto pode explicar quanto ocultar o sentido de qualquer acontecimento. Funciona, de fato, como um chavão construído para legitimar todos os gestos carnavalescos.
– Puxa! Ainda tem mais orador. Olha lá, Manuel! Todo ano é
assim?
– Este ano a safra está sendo maior.
– É a vida difícil – explica Arosca. – A fome. Muitos fazem
discursos porque não podem pega r em armas. No fundo é o
que eles queriam... Mas há também os histriões, alegres de
natureza. E muitos paranoicos no meio. Enfim, tudo é carnaval.
(MACHADO, 1978, 171)
Depois do encerramento dos discursos, entretanto, há uma autêntica reflexão sobre o que eles representam. Reunidos, João Ternura, Pepão, Manuel e Josias apresentam diversas hipó- teses para a eclosão de tal fenômeno:
Pepão não achava que houvesse excesso de oradores; ouvia a
todos com prazer; Manuel considerava o fenômeno meio
farsa, meio pileque – coisa própria de carnaval. Para Josias, o
fenômeno era mais complexo, embora muito conhecido: a
suspensão provisória das proibições leva o povo a praticar
tudo o que secretamente deseja fazer durante o ano; e como
não pode fazer tudo o que deseja (‘você, por exemplo, Ternura:
nunca desejou estrangular alguém, furtar uma jóia, levantar a
saia de uma mulher na rua, nunca?’...) contenta-se em dizer
uma boa parte do que pensa. Vocês imaginem uma múmia
que se desprendesse das ataduras e começasse a pular em
frente aos guardas do museu. Que susto para os guardas, que
alegria para as múmias! Visto a grosso modo, o carnaval é uma
espécie de quebra-quebra geral nos preconceitos. A moral em
férias. (MACHADO, 1978, 183)
A explanação de Josias prossegue tocando em alguns pontos sensíveis à formação cultural brasileira, principalmente na extrema fragilidade diante do poder de sedução das palavras. Denuncia alguns preconceitos que impedem uma visão nítida do brasileiro: luxúria, preguiça, inconstância e relação entre trópico e verborragia. O excesso de palavras esgota e anula o conteúdo dos discursos. As palavras adquirem um valor ornamental. O sonho de todo brasileiro, falar e escrever bonito, equivale a uma metáfora da fantasia carnavalesca, nela as palavras não buscam nenhuma verdade, apenas brilham como efêmeros paetês.
Sob o signo de Narciso
Do ponto de vista da presença de elementos constitutivos de sua organização, o carnaval pode ser considerado um autêntico banquete mitológico. Baco, Vênus, Orfeu, Diana, faunos, sátiros, ninfas, entre outras criaturas míticas estão representados, de um modo ou de outro, nas festas do reino da folia. Essa característica permite estabelecer uma relação entre o conto e os fragmentos do romance analisados, na busca de um processo identitário: o nexo é alcançado sob o signo de Narciso.
Assim como o carnaval, o mito de Narciso é dotado de uma ambivalência – entre vida e morte – inscrita num tempo originário, cujas marcas foram apagadas, e perpetuada em um tempo cíclico através do eterno retorno de suas formas originais.
Narciso não pode ser acusado de amor egoísta, pois não sabe que ama sua própria imagem. Está, portanto, além de um auto-erotismo imaturo, o que rejeita é o amor convencional, o condicionamento a um outro imposto por razões alheias à necessidade e à vontade individuais. Assume a igualdade como uma diferença transgressora: a imagem proibida é fonte de fascínio e perdição. Torna-se um herói cultural da humanidade e sofre as conseqüências do ato desafiador dos regulamentos olímpicos ao ser punido com a morte, mas, novamente incontrolável, continua a viver na flor cor de açafrão, cuja corola é cercada de pétalas brancas.
A beleza, no carnaval, na mitologia ou em qualquer outro lugar, é fator de perturbação, provocação, descontrole. Ela, em sua forma maior de deslumbramento, impede a leitura, a análise, o raciocínio, retira o mundo e os indivíduos dos eixos ('dos gonzos', na expressão contida no anúncio do carnaval em João Ternura). Associada, então, à alegria, ao prazer e ao júbilo, anula radicalmente a existência legislada por outros códigos necessários à organização social. Sua força é sua fraqueza. Vinga-se de sua impossibilidade denunciando outra: a de plena felicidade no mundo constituído por gestos e práticas dominados por uma legislação que não considera fundamentais a alegria e a beleza, estatuindo a hegemonia de outros códigos, capazes de impulsionar a máquina do mundo no caminho do progresso econômico e tecnológico, ao mesmo tempo em que impulsionam os indivíduos à ruína existencial e à uma vida inautêntica.
Em "A morte da porta-estandarte" a perturbação parece nascer de uma natureza transformada – o corpo da operária converte-se no da sambista. O objeto mágico dessa conversão equivale ao lago no qual Narciso bebe a própria imagem. Ele revela o esplendor e a exuberância em plenitude, suprimindo a névoa do automatismo a recobrir o olhar cotidiano, limpando o corpo das imperfeições do mundo das necessidades. Não há poder capaz de impedir a posse do vestuário, pois possuí-lo é assenhorear-se da própria imagem em todas as conotações narcísicas possíveis. O sambista assassino – reprodução moderna da ninfa Eco – não consegue suportar a ampliação da amada, pois a descoberta da imagem implica a revelação da autonomia e, uma vez efetivado o encontro entre essência e imagem, alcançada a identidade da porta-estandarte, só restaria ao negro secar de tristeza.
Não é a rosa no pixaim da cabeça da mulata que remete à flor através da qual Narciso é eternizado, mas o sorriso, o sorriso da morta, o sorriso da vida, o sorriso do carnaval que se perpetua, pois morre e renasce incessantemente.
João Ternura é uma exaltação à vida, não há espaço para a morte, a não ser sob a forma de zombaria, como na passagem do homem-féretro e o seu discurso de defunto. Contudo Narciso também está presente na valorização (ainda que satírica) da imagem metamorfoseada em discurso. As palavras invertidas, desarticuladas ao serem subtraídas aos espaços capazes de fornecer-lhes significados, exibem-se como formas livres, emancipadas do valor de uso. O humor é proveniente desse deslocamento, à exceção do discurso deliberadamente construído de modo ilógico por um dos oradores.
A linguagem múltipla, polifacetada, organiza um autêntico desfile carnavalesco. Nele as palavras são apresentadas despidas do pragmatismo comunicativo que aparece satirizado mediante o recurso a uma rica tipologia discursiva. Há uma intensa movimentação retórica como se a dança carnavalesca fosse reproduzida por intermédio da rápida sucessão de oradores.
Narciso, seduzido pelas palavras, deixa-se levar por uma oralidade alucinada e interminável, conferindo às palavras as marcas de um exibicionismo retórico que traduz uma das características culturais brasileiras: a pompa retórica, o culto à palavra, a credulidade com a qual o povo entrega seu destino àqueles verbalizam os seus desejos e sonhos.
A morte da porta-estandarte e o fluxo discursivo são desfiles carnavalescos nos quais as personagens podem reunir-se à imagem revelada não por um lago, mas pela desalienação dos corpos e da linguagem.
Notas
(1) Sobre a relação entre autores brasileiros e o carnaval ver o artigo de Fred Góes - A literatura brasileira e a arte do carnaval. Rio de Janeiro: UFRJ, 2003.
(2) Para o estudo das relações entre a casa, a rua e o universo carnavalesco ver. MATTA, Roberto da. Carnavais, malandros e heróis: para uma sociologia do dilema brasileiro. 2a. ed. Rio de Janeiro; Zahar Editores, 1980.
(3) Parece extremamente interessante um estudo específico sobre as relações entre a prostituição e o carnaval. Ao que parece a inversão carnavalesca - a troca de sexo nas fantasias, o machão, a mulher-homem etc.-, as figuras da piranha, do gay, do travesti, da rainha, dos portadores de membros gigantescos, da noiva, da virgem, estabelecem a necessidade de uma leitura que só se completa com aquela que as classes conservadores efetuaram de modo depreciativo: a frouxidão dos costumes no carnaval, a ausência de lei, a falta de respeito, a ausência de controle, a baixaria, a nudez, a identificação entre sambista e marginal e entre foliã e puta etc.
(4) O romance João Ternura é estruturado em seis partes, intituladas livro. Apresenta, ainda, um apêndice: O homem e seu capote.
(5) Vale a pena observar que em A morte da porta-estandarte o crime, ato de negação do carnaval, desperta um comentário revelador. As palavras são atribuídas a um membro de um grupo de malandros, de cavaquinho nas mãos: “ – Dor eu não topo, franqueza... Sou contra o sofrimento.”(p. 231)
Referências
ARAÚJO, Hiram et et alii. Carnaval, seis milênios de história.Rio de Janeiro: Gryphus,
2000.
BAKTHIN, Mikhail. A cultura popular na Idade Média e no Renascimento: o contexto
François Rabelais. São Paulo-Brasília: Hucitec-Ed. Universidade de Brasília,
1987.
BURKE, Peter. A cultura popular na Idade Moderna. 2a. ed. São Paulo: Companhia
das Letras, 1995.
CARVALHO, José Murilo de. Os bestializados: o Rio de Janeiro e a república que
não foi. São Paulo: Companhia das Letras, 1999.
CAVALCANTI, Maria Laura Viveiros de Castro. O rito e o tempo: ensaios sobre o
carnaval. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1999.
EULÁLIO, Alexandre. Livro involuntário: literatura, história, matéria & memória. Rio
de Janeiro: Editora da UFRJ, 1993.
GÓES, Fred. A literatura brasileira e a arte do carnaval. Rio de Janeiro: UFRJ, 2003.
_____. A construção do corpo brasileiro no carnaval. Rio de Janeiro: UFRJ, 2003.
MACHADO, Aníbal M. A morte da porta-estandarte, Tati, a garota e outras histórias.
12a. ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1985.
_____. João Ternura. 4a. ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1978.
PIMENTEL, João. Uma história informal do carnaval de rua. Rio de Janeiro: Relume-
Dumará, 2002.
SPALDING, Tassilo Orpheu. Dicionário de mitologia greco-latina. Belo Horizonte:
Itatiaia, 1965.
SEVCENKO, Nicolau. Literatura como missão: tensões sociais e criação cultural na
Primeira República. São Paulo: Brasiliense, 1983.
VALENÇA, Rachel T. Carnaval: para tudo se acabar na quarta-feira. Rio de Janeiro:
Relume-Dumará: Prefeitura, 1996.
Rio de Janeiro, agosto de 2003.
Comentários
Postar um comentário