Cartas de um sedutor: uma poética
experimental *
A primeira edição de Cartas de um sedutor data de 1991. Com o surgimento dessa obra, Hilda Hilst deu por terminada a denominada trilogia obscena, iniciada no ano anterior, com a publicação de O caderno rosa de Lory Lamby, a que se seguiu, no mesmo ano, o livro Contos d’escárnio. Textos grotescos. A trilogia traduziu a insatisfação de Hilda Hilst com a receptividade de sua obra, o seu desapontamento com a crítica e o público no Brasil. Não se pode reduzi-la, no entanto, a um simples protesto ou apenas à dimensão pornográfica, lendo-a sob uma ótica que folclorize as idiossincrasias da autora ou se atenha somente à dimensão apelativa de uma sexualidade fora de controle. De toda a pornotrilogia (na verdade, uma falsa designação, uma vez que, apesar da dimensão pornográfica, não há uma unidade entre os três livros), as Cartas constituem o momento mais complexo, pois reúnem elementos que vão além da esfera obscena, revelando aspectos da poética que estrutura toda a sua narrativa.
A
narrativa complexa de Hilda Hilst exige um esforço do leitor, obriga-o a
abandonar a previsibilidade e a linearidade da leitura, desautomatiza a
expectativa, o prazer da leitura inocula-se com o vírus da inquietação, das
perguntas sem respostas, a promessa de uma escrita pornográfica não se cumpre
porque o texto se adensa, segue um ritmo pulsante, corrosivo, crítico,
transforma-se num relato pornometafísico tensionado entre uma escrita do corpo
elaborada como pura provocação e uma escrita das perguntas sem respostas que
lhe dão uma densidade humana de uma radical busca ontológica.
Uma das características mais fascinantes de Cartas de um sedutor é a impossibilidade de efetuar-se uma classificação baseada nos moldes da tipologia narrativa usual: romance?, reunião de contos?, de novelas?, narrativa epistolar?, diário? Hilda Hilst trabalha o(s) texto(s) sem qualquer preocupação com um possível enquadramento. Embora utilize recursos das formas narrativas tradicionais, eles estão à disposição de uma voz que percebe na ruptura dos paradigmas textuais a única forma de libertação e de expressão da natureza perscrutadora que a constitui, o que evidencia a radicalidade de uma busca existencial incapaz de ser abafada ou neutralizada pelo revestimento pornográfico que recobre a linguagem do livro. A fim de comprovar tal ponto de vista, no entanto, faz-se necessário analisar a arquitetura textual da obra.
As Cartas compõem-se de três blocos
narrativos. O primeiro, o maior de todo, do qual foi extraído o título do
livro, organiza-se em torno de vinte cartas escritas por Karl, endereçadas à
irmã e amante Cordélia. O segundo bloco é constituído por quatro contos, aos
quais pode ser agregado o texto intitulado “De outros ocos”, apesar de gozar de
relativa autonomia e de maior complexidade em relação aos relatos anteriores. O
último bloco é formado por sete contos curtos. A ligação entre os três blocos
permite reconhecer o caráter experimental da prosa hilstiana, uma narrativa
capaz de quebrar expectativas ao não observar a centralidade de linearidade
discursiva, sequências temporais, densidade e profundidade psicológica das
personagens ou desdobramento de ações, elementos que, na verdade, são
utilizados como auxiliares de uma linguagem extremamente elaborada e de um
pensamento que faz da insatisfação a força que o coloca em incessante
movimento.
Narrativa epistolar
Apresentação
As cartas que constituem o primeiro bloco são precedidas por um monólogo curto, espécie de introdução, feita por Tiu (Stamatius), narrador proteico. Trata-se, na verdade, de uma espécie de prólogo sobre valores, entre os quais se inclui o valor da alta literatura para a burguesia endinheirada, em cujo lixo ele resgata obras de arte misturadas a dejetos.
O
dilacerante dualismo entre o carnal e o espiritual brota da primeira linha:
“Como pensar o gozo envolto nestas tralhas? Nas minhas. Este desconforto de me
saber lanoso e ulcerado,...” (CS, 15) O pendor para o pensamento, o ousar
pensar, ameaça dissolver a antítese, no entanto ela se mantém pela refração do
mundo à ex-centricidade. A criação é
provocada por rejeição, estranheza, desconforto. O relato é a tensão entre o
sujeito centrado, singular, tal como o constituiu a filosofia até o século XIX,
pelo menos, e o sujeito exilado de si mesmo, o sujeito que sobrevive de modo
fantasmático, cuja voz narrativa sobrevive como destroços. Ao longo do livro, o
narrador, num movimento paradoxal, assume diversas vozes que operam a partir de
pontos diversos, ditam o relato, ao mesmo tempo em que não possui controle,
domínio, torna-se incapaz de estruturar uma obra que pudesse, com propriedade,
corresponder à ideia de conjunto unificado esteticamente. Tal movimento
volta-se para o narrador que não aceita a recusa, a ausência de resposta, por
isso explode a narrativa, a temporalidade, e a experiência surge sob a forma de
fragmentos. O gozo não é pensado, a Resposta é o silêncio de Deus. A escrita é
expulsão de dejetos, o lixo, criação e coprologia interativas: “depois cuspo
nos papéis, aqueles que há seis meses e a cada dia aliso apalpo rasgo, sujo.”
(CS, 15) Escrever é soltar os demônios; os da palavra.
Não
é à toa que a amante de Stamatius é denominada Eulália, palavra que vem
etimologicamente do grego eu-, bom + lalía, fala, voz. É ela quem alimenta o
narrador quando o processo criativo torna-se nulo (“se ao menos eu conseguisse
escrever” [CS, 18]), quem lhe diz sobre o que escrever, é a voz que sopra a
história. Pode pedir para escrever sobre ela, sobre banalidades, sobre o
Brasil. O não saber de Eulália determina o rumo do saber (mente, mãos e falo)
que constrói a história.
O
narrador-personagem, Stamatius, é um perdedor em todos os sentidos: escritor
fracassado, perdera os dentes, os móveis, a hipoteca da casa e a mulher. Sua
posição marginal é assinalada pelo seu caráter de mendigo culto, refinado,
lavador de livros encontrados no lixo, lavagem da qual o seu próprio texto
emerge. No lixo encontra livros de Tolstói (A
morte de Ivan Ilitch), de Filosofia, de Marx, a Bíblia e, principalmente, a
obra completa de Kierkegaard.
O
diálogo entre o livro de Hilda Hilst e o romance de Kierkegaard, Diário de sedutor, é fundamental para a
compreensão do caráter paródico de que se reveste CS. Ambas as obras apresentam
uma introdução que termina de forma semelhante: “Eis as cartas”, no Diário (p. 151); “Vamos lá”, em CS
(p. 19), só que em contextos bem distintos. Se em ambos funcionam como
marcadores textuais de início de narrativa, no primeiro assume com nitidez o
caráter de suspensão momentânea do texto introdutório, transformando-o em
pré-texto de uma história cujos acontecimentos serão finalmente apresentados em
uma estrutura dupla, diário e carta, formas afins pelo caráter confessional,
responsável pelo estabelecimento do significado da obra; nas CS, a ideia de uma
simples apresentação de um conteúdo pré-existente é trocada pela referência à
construção, à criação vista como um desafio (proposto permanentemente por um
demônio), referência que emana do caos, da crise, do lugar da exclusão e
unifica gozo e escrita.
Há
ainda em CS concepções que possuem semelhança com as adotadas por Kierkegaard e
que permitem analisar a relevância do autor de Conceito de Angústia para o universo hilstiano. Usando o
artifício romântico de construir uma neutralidade, um distanciamento das cartas
que correspondam à construção do narrador, este no Diário de um sedutor observa que elas contêm estudos de situações
eróticas, conselhos os mais diversos, rascunhos, uma escrita vazada num estilo
negligente mais artisticamente rigoroso. Refere-se a um caráter fragmentário,
constituído basicamente pelas lacunas com as quais o narrador também constrói a
história. Essa fragmentação surge, de modo mais intenso, no livro de Hilda
Hilst, não apenas no plano temporal, mas no próprio plano discursivo, calcado
na elipse e na mudança formal que esfacela a continuidade presente na obra
kierkegaardiana.
Ainda
na introdução ao seu livro, Kierkegaard faz duas afirmações valiosas para a
análise aqui empreendida. A primeira refere-se a esteticização de sua vida
empreendida pelo protagonisa: "A sua vida foi uma tentativa constante para
realizar a tarefa de viver poeticamente". (Kierkegaard, 1974, 146)
Envolto em tralhas, no desconforto, cheio de feridas, com a boca desdentada por tensões e vícios, Stamatius não pode ser perdoado. Sua miséria resulta do risco assumido em não fazer concessões, fazer da linguagem o campo de busca de uma plenitude nunca alcançada, porém de cuja possibilidade não desiste nunca, mesmo deslocado ou no meio de cenário e cena mais infames. Assim Stamatius/Karl/Eulália são outros nomes da mesma voz que esteticiza a existência, campo de experimentação e indagação ontológica. O narrador do texto de Kierkegaard, ao voltar à caracterização do protagonista, aprofunda essa homologia entre vida e poesia.
O tom poético
era o excedente fornecido por ele próprio [o diário]. Esse excedente era a
poesia cujo gozo ele ia colher na situação poética da realidade, e que retomava
sob a forma de reflexão poética. Era este o seu segundo prazer e o prazer
constituía a finalidade de toda a sua vida. Primeiro gozava pessoalmente a
estética, após o que gozava esteticamente a sua personalidade. Gozava pois
egoisticamente, ele próprio, o que a realidade lhe oferecia, bem como aquilo
com que fecundava essa realidade; no segundo caso, a sua personalidade deixava
de agir, e gozava a situação, e ela própria na situação. Tinha a constante
necessidade, no primeiro caso, da realidade como ocasião, como elemento; no
segundo caso a realidade ficava imersa na poesia. (KIERKEGAARD: 1974, 147)
A dimensão híbrida da escrita hilstiana tem na dimensão poética um processo que se instaura em todas as formas, da poesia propriamente dita ao texto dramático, passando pela crônica do cotidiano, pela indagação metafísica, pelo discurso licencioso e todas as demais possibilidades narrativas exploradas pela autora. O duplo gozo, no entanto, ao contrário do contexto do Diário de um sedutor, não assinala apenas duplicidade, mas dilaceramento. Sua natureza antitética não se dá pela distinção entre o narcisismo no qual a realidade é uma linguagem que projeta e amplia o criador e o narcisismo no qual o criador é uma realidade configurada pela linguagem. A desreferencialização do sujeito espatifa o espelho. Sujeito, narrador e narração fragmentam-se. Só na linguagem os cacos, vazios de significados, transformados em significantes lançam imagens de novas possibilidades de leitura e produção de sentido. O espaço de proliferação de uma nova poética apontada por Hilda Hilst é o espaço do excedente, da margem, é o lixo, o lugar do excesso, do abscesso, do sujo, do rejeitado, do fora de uso. É fora do comércio das palavras que as palavras vigem. É fora do utilitário, do finalístico e do funcional que a arte avança e funda outra realidade.
As cartas
Numa clara paródia do Diário de um sedutor, as cartas escritas por Karl são endereçadas à irmã, chamada Cordélia, à semelhança da infeliz vítima da sedução de Johannes, protagonista da obra kierkegaardiana. Já no começo há uma demarcação entre a atividade errática e descentrada de Karl e o trabalho meticuloso de conquista efetuado por Johannes, autêntico sedutor, um Don Juan cuja prática e concepção amorosas equivalem ao método de investigação científica da época moderna, pois consiste em estudar, classificar, selecionar, ordenar e controlar sentimentos com uma precisão e domínio insuperáveis, podendo exibir o catálogo de presas amorosas como um entomologista exibe uma coleção de borboletas.
A
primeira carta vem introduzida por um poema de natureza híbrida, no qual há
ressonâncias de composições obscenas e satíricas, na linhagem de Marcial,
Gregório de Matos e Manuel Maria de Bocage. Nele as claras intenções
pornográficas são manifestadas por uma linguagem em que os termos chulos - “que
figaste o paterno caralho”, “Hei de te arrebentar as rebembelas”, “rombudas
picas” – convivem com palavras que dão à composição uma estranha feição
clássica e bucólica: - “O campo envelhece vacas e mulheres”, “Para teus
represados sentimentos vis” -, quando a ele não se misturam – “Foste antanho
putíssima, celebérrima.”
A
obra de Hilda Hilst reinscreve o universo epistolar alimentando-se dos romances
epistolares do século XIII, particularmente As ligações perigosas, de Choderlos de Laclos, constituído todo ele
por cartas trocadas principalmente entre a Marquesa de Merteuil e o Visconde de
Valmont, este último aristocrático personagem provavelmente um dos modelos
tomados, juntamente com Don Juan, por Kierkegaard para caracterizar Johannes.
O
teor das cartas hilstianas são relatos das experiências de um burguês blasé e impiedoso a respeito de suas
aventuras e devassidões sexuais, com direito a todas as formas de amor, em que
sobressaem a fixação, em termos sexuais, pela irmã; as (in)confidências sobre
os casos do pai, e a revelação, a que o leitor tem acesso pela leitura indireta
das respostas da irmã, do caso desta última com o pai, de que resultou o filho
Iohanis, com quem ela igualmente mantém relações sexuais. Ou seja, também os
incestos descritos e narrados obedecem ao movimento en abîme que organiza a linguagem.
Na
primeira carta fica evidenciada a razão da correspondência: é uma tentativa de
retomar uma ligação interrompida por cerca de dezesseis anos; representam, na
realidade, a única possibilidade de contato entre ambos, já que ao irmão só foi
concedido o acesso à caixa postal de Cordélia. O teor da trama é escabroso: a
mãe foge com um homem, a irmã deseja o pai, entrega-se ao irmão pensando na
figura paterna, o irmão toma-lhe o amante.
A
segunda carta pode ser vista como uma resposta à aceitação de troca de
correspondência, já que se relaciona a uma missiva enviada pela irmã, voz
elíptica, reconstruída parcialmente como sombra dialógica na voz dominante de
Karl. Se a linguagem pesada e trabalhada já problematiza o caráter pornográfico
do texto, o surgimento de diversas referências às obras literárias, um espécie
de diálogo com a grande literatura, complica mais ainda a mera percepção da
narrativa como uma forma de literatura de baixo calibre, composição em tom
menor. Ao nomear o amante, Karl preocupa-se em filiações literárias: chama-o de
Alberto por apreço a Albert Camus, preocupando-se em não relacioná-lo ao
universo proustiano. Tal elevação contrasta com a linguagem obscena e com a
presença de traços de gosto duvidoso, grotesco: “Bunda de mulher deve dar bons
bifes no caso de desastre na neve.” (CS, 25)
O
narrador não estabelece distinção entre sagrado e profano, mesmo Deus habita o
espaço pornográfico com naturalidade, como aparece na terceira carta: “O
Criador, quando quer, sabe o [referência à bundinha perfeita de Albert] que
fazer com as mãos.” (CS, 30) A referência ao universo das ideias continua com a
referência aos livros de Rank e a figura provocante de Anais (CS, 28). Mais à
frente surge “o brilhante tarado do Foucault”. (CS, 29) [1]
Os
livros continuam a pontuar a narrativa na quarta carta, nela aparece uma obra
de Daniel Schreber, cuja maior preocupação é com o fato de se saber ou se sentir
um homossexual passivo. O universo do homossexualismo é reforçado com a citação
de Devassos no paraíso, de João
Silvério, obra que gira em torno desse tema. Karl, ao fazer observações sobre a
linguagem, parece remeter à consciência literária da autora: “fala [o livro de
Schreber] da língua fundamental, que vem a ser uma língua com sintaxe própria,
que omite palavras, deixa frases interrompidas e expressões gramaticais
incompletas, coisas que sou tentado a fazer muitas vezes...” (CS, 32) A
inclusão desse tipo de reflexão não faz parte da lógica de um texto considerado
pornográfico, avesso, em tese, ao pensamento. A carta é uma verdadeira babel de
estilos: reflexão sobre linguagem, citação de livros, inclusão de diálogo,
receita de drinque, memórias familiares, jogo de polo.
A série de referências literárias continua na quinta carta, na qual aparece referência a O amante de Lady Chatterley, de D. H. Lawrence, e termina misturando a sordidez prosaica presente no cotidiano das personagens de CS com a retratada na obra de Jean Genet.
A sexta carta detalha o processo de sedução ao qual Karl submete Albert, valendo-se da exposição de múltiplos elementos. Inicia com uma aparente descrição do amante para fazer a partir de um detalhe físico, os dentes perfeitos, uma digressão de natureza caótica na qual entram preço de orçamento de tratamento dentário, inscrições lidas nos muros e notícias divulgadas por uma rádio, isto é, incorpora ao texto anotações que quebram a linearidade da narrativa, submetendo-a ao modo fragmentado da realidade. Ao processo de sedução o narrador-personagem Karl acrescenta, como recurso decisivo para comprovar seu ponto de vista, o peso esmagador de toda a erudição possível na defesa da masturbação, invocando os nomes de John C. Powys, Havellok Ellis, Theodore Schroeder para sustentar a naturalidade desse ato. O diálogo entre Karl e Albert é teatralizado com a inclusão de marcas pronominais à frente de cada fala.
Karl
aconselha Cordélia a ler Das razões
da Coincidência, de Arthr Koestler, para entender melhor a questão das
hierarquias, que surgem tendo como foco um casal de criados caracterizado pela
predileção da mulher em lamber o ânus do namorado. Hierarquia que está na
gênese da produção da narrativa, fruto do descontentamento de Hilda Hilst com a
diminuta recepção de sua obra por parte do público. CS problematiza a própria
noção de valor, ao eleger uma forma considerada inferior, a pornografia, para
ampliar o universo de influência da autora. No entanto, provoca um
curto-circuito na própria recepção: a crítica, a princípio, desqualifica,
rebaixando-a na hierarquia de valores estéticos; o público buscado não responde
ao apelo por não ver nele o campo de referências e a linguagem habituais [2] .
Entre a incompreensão de todos os lados, no entanto, a ousadia de Hilda Hilst
faz com que a recepção se amplie, o choque inicial acaba por funcionar como
provocador de um novo olhar para a obra hilstiana, olhar capaz de perceber a
precariedade e a insustentabilidade de estigmatizá-la como pornográfica, a
qualidade da narrativa acaba, progressivamente, sendo reconhecida.
A
entrega à devassidão jamais afasta Karl do mundo da cultura. A narrativa pode
conciliar a natureza bissexual (Karl seduz Albert e depois transa com Petite)
com o recalque de perceber que os criados também liam obras valiosas: “Estou
indignado. Genet e Tolstoi lidos por criados.” (CS, 54)
Na
carta IX menciona Nietzsche e Lou Salomé, para na seguinte fazer referência a
Lawrence (citado textualmente), Freud, Jung e Ovídio (o das Metamorfoses). Na décima segunda, as
irmãs Brontë são mencionadas.
Na
carta de número quinze, aparece citação pejorativa aos livros de Jacqueline
Susan, Jackie Collins e Daniele Stell. Posteriormente aparecem Rimbaud,
Verlaine, Proust, Genet, Foucault, Mishima e Kafka e Tolstoi, todos estes, a
exceção do último, flagrados em aspectos forma do comum, sujos, rejeitados
socialmente. O processo recorrente de citação de obras e autores indica a
profunda necessidade de filiação de Hilda Hilst à esfera da alta literatura, a
consciência, explicitada em muitas entrevistas e ao longo da obra da autora, de
estar realizando um trabalho de alta envergadura literária.
O
início da décima sexta carta é extremamente revelador:
Os ossos. Os
ovos. A sementeira. Essas coisas me vêm de repente num tranco. Ando cuspindo
nas rodelas. Estou lixoso, áspero comigo mesmo e com o mundo. E confuso,
Cordélia. Uma vontade louca de escrever na língua fundamental. Aquela. Te
lembras. A de Schereber. Vontade de não dar sentido algum às coisas, às
palavras e à própria vida. Assim como é a vida na realidade: ausente de
sentido. (CS, 76)
A voz de Karl ecoa a voz de Hilda Hilst, da autora também preocupada com uma língua seminal, essencial e medular, criada num transe, num fluxo caótico de natureza especular a uma realidade destituída de significados, um mundo de significantes, de leitura opaca, organizado por alusões e elipses a um deus concebido como uma sombra sem corpo, uma projeção de um som no qual só o silêncio fala.
A
supressão de nexos marca as lembranças do narrador que faz associações
aleatórias, como relacionar o nome da mulher do assassino de Trotski, Orquélia,
ao de Cordélia, deixando os significantes, a pura semelhança sonora, forjar
falsas relações semânticas. Talvez tal processo ajude a entender o real como
falsificação, uma vez que a imagem guardada por Karl da mãe é na verdade a de
um retrato que não era o dela.
Ulisses,
de James Joyce, aparece na carta dezessete associado a Petite, uma das inúmeras
amantes de Karl, pertencente à esfera burguesa, e especificamente pontuado no
monólogo de Molly. Na carta, o desejo surge como constituinte do caráter
predador do ser humano, o desejo para consumar-se deve consumir o objeto para o
qual se volta: “Na verdade o que queremos é dilacerar o outro. Dão o nome de
desejo a essa comilança toda. Na natureza tudo come. Do leão à formiga. Até as
estrelas se engolem umas às outras.” (CS, 78) Essa crueldade antropofágica da
existência ira ressurgir na parte final do livro.
A
próxima carta inicia-se com uma paródia sexual grotesca da célebre passagem
descritiva de Marcel Proust sobre as reminiscências provocadas pela apreensão
olfativa das madeleines. O universo
evocado pela memória reconstitui a fraterna felação após o mergulho do falo na
xícara de chocolate. A escrita de Karl é uma rasura, tenta reconstruir uma
sexualidade familiar promíscua recorrendo a referenciais literários como
escombros, fragmentos, as ruínas de uma escrita que não consegue dominar. A
consciência desse processo é que leva Karl a revelar a sua insatisfação: “Ando
me sentindo um escroto de um escritor e quando isso começa não acaba mais.”
(CS, 83) A escrita de Karl é descontínua, interrompe a carta para livrar-se de
Petite. Reproduz, contudo, um diálogo no qual o jogo com as palavras acaba na
valorização do puro significante, no qual as palavras efusão, fartura e boceta
dão motivo a diversos enunciados nos quais são reunidas por serem consideradas
desagradáveis por Petite.
Esta
carta, como todas as outras, é um chamado ao prazer, um convite endereçado à
Cordélia para a total entrega a uma orgia sem fim. Também nela o narrador não
foge ao processo de inserir o seu universo de leitura ao relato: “O outro dia
li que um amigo de Richard Francis Burton deu-se muito mal com um besouro que
lhe entrou tímpano adentro.” (CS, 85) Citação que acrescenta uma informação na
verdade irrelevante ao texto, revelando uma face exageradamente culta do
narrador, uma preocupação excessiva em pontuar um texto carregado de obscenidade
com enxertos da alta cultura como se esse processo fosse capaz de conferir ao
texto qualidade e valor, salvando-o do tom pesado do tema e da linguagem.
A
décima nona carta fornece, de modo indireto, um retrato da reação da irmã à
proposta de Karl e a descrição do filho, irmão e amante Iohanis.
A
última epístola representa o rompimento da correspondência com a irmã, funciona
em conexão com a carta anterior, uma vez que pressupõe resposta às informações
fornecidas por Cordélia. Karl, então, obtém a comprovação de que Iohanis é o
filho de seu pai. Tal revelação funciona como ruptura do desejo sexual pela
irmã. Livre da tentação fraterna, Karl pode dedicar-se exclusivamente aos jogos
amorosos com o amante.
O
processo de afastamento entre os irmãos é paralelo ao deslocamento da
narrativa. Karl desaparece como personagem-narrador, Stamatius reassume o
comando: “Eu, Stamatius, digo: vou engolindo, Eulália, vou me demitindo desse
Karl nojoso.” (CS, 89) Note-se que Stamatius já aparecera como personagem na
narrativa de Karl:
Tínhamos um
amigo, o Stamatius (!) (eusó o chamava de Tiu, porque, convenhamos, Stamatius
não dá) que perdeu tudo, casa e outros bens, porque tinha mania de ser
escritor. Dizem que agora vive catando tudo quanto há, catador de lixo, percebes?
Vive num cubículo sórdido com uma tal de Eulália que deve ter nascido no
esgoto. (CS, 67)
A reassunção de Stamatius traz de volta a atmosfera fluida da introdução, com a presença da voz demoníaca de Eulália, em diálogos sem as marcas tradicionais de travessão e maiúsculas, propondo novos rumos, fornecendo o mote das histórias a serem narradas por um narrador inseguro e flutuante. A linguagem mostra-se como um balé de significantes, movimento no qual os significados brotam de modo casual, aleatório.
A
passagem entre a narrativa epistolar e os contos, sem qualquer mediaçäo,
operada de modo notável, surge após Stamatius (Tiu) questionar os valores que
regem o mercado das artes literárias e a necessidade de escrever bandalheiras
para sobreviver. A transiçäo entre os dois blocos resulta de uma das propostas
de Eulália: “escreve um conto horrível, todo mundo gosta de pavor, a gente
sente uma coisa no meio... um arrepião.” (CS, 92) Stamatius, então, começa a
escrever uma história denominada “Horrível”.
Contos
"Horrível"
Neste conto, Pedro, o protagonista, aparece embebido em uma forte atmosfera cultural, sempre às voltas com livros. A narrativa apresenta-o lendo para o triste e solitário marido de sua vizinha, D. Justina, um livro de Camus, A morte feliz, no qual alguém comete um assassinato sem arrependimento ou sentimento de culpa. A morte feliz pode ser vista como a sensação agradável sentida pelo velho e pelo assassino após enterrarem a vítima.
Não
só a forma narrativa, conto, como também o próprio tema, a morte feliz,
desfazem a continuidade com as cartas, rompem, por conseguinte, uma sequência
formal e temática.
O
término da história reintroduz Eulália. O autor não soube interpretar de modo
correto o significado da palavra horrível que ela propusera como tema. A obra
jamais exterioriza a energia subterrânea e primitiva soprada pelo demônio
interno que a funda e constitui. Eulália termina por pedir a Stamatius que
escreva qualquer besteira. É o que ele faz.
"Bestera"
O descompasso entre a intencionalidade estética e a recepção da obra, a submissão da arte a interesses mercadológicos, o apagamento da qualidade literária, a indistinção entre alta literatura e escrita comercial abrem o conto. O seu início serve como uma espécie de justificativa à produção do próprio livro (e da trilogia obscena): “Cansei-me de leituras, conceitos e dados. De ser austera e triste como consequência de ver frivolidades levadas a sério e crueldades imagináveis tratadas com irrelevância, admiração ou absoluto desprezo. (CS, 100)
A sexualidade promíscua vivida por Leocádia, a personagem nuclear do conto, possui similaridade com a experiência vivida pela autora que pensa abrir mão da qualidade para alcançar o prazer de sentir-se amada por um público. Leocádio/narradora/autora são clones, são os despojos de um sujeito que precisa negar-se para alcançar o outro, tornam-se assim a negação da negação. O outro não surge no horizonte, a possível presença se dá apenas como sombra, o prazer anônimo ou quase anônimo, o sexo transformado em uma forma de contrato similar àquele feito com editores ávidos por livros facilmente vendáveis.
Na
enunciação, no entanto, o zelo linguístico trai a voz do enunciador ao
referir-se à característica da empregada (professora) - “e tinha ligeiras
náuseas quando usava mesóclise” (CS, 101) e ao discurso verborrágico da nora, a
quem dirige insultos – para quem era importante “agilizar o conceito de fala”
(CS, 103). O texto busca o promíscuo, porém alcança um tom desencantado entre o
patético e a crueldade. A velhice esconde suas marcas e assume o gozo como
maldição.
Como
não poderia deixar de ser, as referências alusivas à literatura estão
presentes. Dessa vez novamente a referência a Joyce (o nome da empregada), a
Wittegenstein e principalmente a Chesterton que tem uma frase citada pela
narradora “Se a tua cabeça te ofende, corta-a fora” dentro de um contexto bem
expressivo: “Foi o que aconteceu com a minha, porque para mim depois de todas
as reflexões sobre a sordidez, a ignomínia, a canalhice da humanidade, prefiro
esquecer que um Chesterton existiu.” (CS, 102) É por sentir-se ofendida que
Leocádia corta a própria cabeça, escondendo-a com uma fronha de rendas
francesas a fim de não revelar aos amantes as rugas do rosto. Claro que a ação
impiedosa do tempo não a marcou apenas no físico, mas cumulou-a de experiências
negativas a ponto de expressar um desencanto radical com a vida: “sei tudo
sobre crueldade, conheço Deus.” (CS, 103)
A
velhice também surge como uma espécie de exercício de liberdade permitido pela
estranheza da condição terminal humana. É uma alegria inconsequente e louca
propiciada pelo deslocamento e pelo distanciamento em que o velho é mantido.
Tal fato justifica o pensamento de Leocádia: “Ah, como é delicioso e prático
que as pessoas nos pensem estranhas... O conforto de não ser mais levado a
sério, esse traquear de repente e sorrir como se não fosse com você, e poder
acariciar um peixe morto na peixaria e chorar diante de um cão faminto. É bom
ser estranho e velho”. (CS, 105)
Dessa vez Eulália parece ter gostado da história, considera o fato de Leocádia ter terminado revelando ter reencontrado o rosto e a felicidade na promiscuidade. Aconselha então Stamatius a descansar porque já era sábado. Stamatius, entretanto, inicia a próxima história contrariando o pedido da amante.
"Sábado"
Se os apelos sexuais de Eulália não surtem efeito, as suas palavras ajudam a expansão de uma estrutura literária que parece resultar de um processo criativo organizado mediante a produção de ondas de significantes formadoras de zonas de significados, que, por sua vez, proliferam, valendo-se de elipses e desconexões, como se fundassem um universo em expansão caótica. Este conto toma como título a última palavra dita por Eulália no texto anterior, dando um andamento cíclico ao ritmo narrativo.
Não
falta nele referência a livros. O narrador cita O suicídio – modo de usar e refere-se de modo vago a outro autor −
“lembro-me de alguém em algum livro ‘os gigantes devem ser mortos porque são
gigantescos’”. (CS, 111)
A
observação final de Eulália denuncia o hermetismo da composição. Mais uma vez
ela fornece o mote para ao próxima história:” tô triste...” (CS, 112)
"Triste"
O protagonista dessa história é um estranho anônimo. Alguém que não participa do comércio dos homens, diz sempre coisas sem nexo quando encontra outra pessoa na rua, está sempre com um maço de papéis em branco nas mãos, sempre reclamando da dificuldade de ser compreendido, como se fosse um retrato caricato de um genial escritor cujo pensamento estivesse fora do alcance de qualquer leitor.
A
ansiedade dos habitantes da cidadezinha por novas palavras é rompida quando o
homem começa a gritar – “quero fudê!” A linguagem chula quebra o pacto de
convivência. Soa não com a naturalidade de um desejo represado por longo tempo,
mas parece carregada com um teor ofensivo grave e imperdoável, corresponde a
uma transgressão às noções mais elementares de comunicação, ao rompimento com
as formas protocolares do convívio social. A foto de um menino segurando um
porco, contendo no verso a inscrição “meu primeiro amor”, documenta um amor
fora dos parâmetros da aceitabilidade: a zoofilia parece desterrar a humanidade
da vítima.
No
final do conto Stamatius retoma o controle absoluto. É ele quem determina agora
o rumo, quem decide quando parar e quem dá o mote para o próximo passo. “eu
paro aqui. No oco das astúcias” (CS, 115). E a próxima narrativa denomina-se
“De outros ocos”.
"De
outros ocos"
É um longo e dramático monólogo de Tiu sobre a morte, sobre o ato da escrita, sobre perdas, sobre derrelição. Oco é um dos temas recorrentes na obra hilstiana, como pode ser comprovado pela última narrativa de Kadosh, intitulada justamente “O oco”. (HILST, 2002, 125-200) Possui, no entanto, marcas que o distanciam das histórias anteriores, uma vez que elas são autônomas em relação às cartas, já este relato não possui uma estrutura independente em relação às missivas, uma vez que Stamatius retoma elementos anteriomente citados, assumindo o duplo papel de narrador e personagem, criador e empregado de Karl simultaneamente. As epígrafes de Bataille e Cioran colocadas em seu início contribuem para aumentar a ambiguidade.
Stamatius
e Eulália estão sozinhos em uma praia. Ele vendeu os livros, largou as tralhas,
tudo. Lembra-se das atitudes de Karl e julga-as de modo negativo. Seu discurso
está impregnado de sexualidade, tanto como reminiscência quanto de modo
concreto, expresso por seu relacionamento com Eulália. Em muitos momentos o processo
do corpo em sua decrepitude coabita com a incessante recorrência à busca
existencial: “Vou perguntando mas não espero respostas, quero continuar
perguntando mas sabendo que não vou ouvir vozes, nem Daquele lá de cima que há
muito viajou a caminho do Nada”. (CS, 124-125) A procura em alguns momentos
apresenta traços místicos, como na evocação de Hildegarde Von Bingen,
Stamatius, refere-se a luzes em seu olho esquerdo. Isso após desqualificar a
morte, chamando-a de “manhosa, meretriz, rascoa” e afirmar que ela quer que ele
prove do bacalhau dela: nem a morte escapa da linguagem obscena.
A
velhice apresenta sua face. O corpo se escreve com a linguagem da decomposição.
Stamatius pensa em todas as tripas – “Na cloaca deste embrulho que é o corpo”.
(CS, 126)
O
ato de escrever se dá por proliferação. Stamatius escreve sem parar, quanto
mais distante de qualquer resposta, mais intensa, caótica e fragmentária
torna-se a escrita. O texto, concebido como uma estrutura incomum, vigendo fora
dos padrões literários dominantes, é concebido como uma bizarria. As palavras
assumem uma feição de visões místicas de uma realidade estilhaçada cujo fluxo
voluptuoso é visto como uma orgia de fosfenas.
Se
no plano interno Stamatius alcança uma espécie de transcendência, jamais se
afasta do apelo dos sentidos, principalmente da força instintiva, brutal,
animal de uma carnalidade obsessiva emanada da presença de Eulália, apesar de
vislumbrá-la como pura irrealidade, projeção dos seus próprios desejos.
A
identidade, apesar de uma consciência poderosa, linguagem-senhora de todas as
personagens da narrativa, desaba, ao não conseguir evitar a absorção do eu e
todas as suas formas (Stamatius/Karl/Eulália), inquietudes e contradições por
um caos que tudo anula e iguala.
Eu despencando
num caos laranja. Pinceladas ruivas dentro de um caos laranja. Bewusstsein.
Bewusstsein, é muito mais Consciência que consciência. Consciência é sibilino,
lânguido. Bewusstsein é grosso, quente. Como é, na realidade, a Consciência.
Ter consciência é bewusstseiniano. Pesado, chumboso, ardente. Estou em chamas.
Sou mortal e fundo e consciente e ainda assim devo acabar a vassouradas, num
canto, igual a um rato. Nem tanto, me diz um outro. Pode ser na cama até.
Dizendo coisas. (CS, 134)
A constante referência aos mais diversos autores é uma característica que se mantém neste relato. Assim, Lawrence, Henry James e Proust são referidos no meio da narrativa.
A
voz demoníaca de Eulália ressurge e busca intervir na criação. Mais uma vez
Stamatius cede à tentação. Descreve uma cena de sexo aparentemente atendendo a
um pedido da amante. Só que o relato não é centrado na descrição do ato sexual,
mas nas lembranças que vão surgindo durante a sua realização, nos dados
fragmentários de uma possível biografia de Stamatius.
A
questão editorial, a visibilidade da obra, a sua aceitação, o seu valor
provocam uma reação indignada de Stamatius que faz uma crítica endereçada à
valorização de elementos superficiais, puramente mercadológicos. Tal visão
surge em diálogo com Karl que sustenta um ponto de vista de cumplicidade com o
sistema editorial, razão pela qual é odiado por Stamatius:
Ponderava: Tiu,
não tem essa não de ascese e abstração. Escritor não é santo, negão. O negócio
é é inventar escroteria, tesudices, xotas na mão, os caras querem ler um troço
que os faça esquecer que são mortais e estrume. Continua: Tiu, com a tua mania
de infinitude quem é que vai te ler? Aposto que serei o primeiro na vitrina e
tu lá nos confins da livraria. (CS, 138)
A
proposta literária do narrador choca-se com a imposição do mercado. Sua
sensibilidade encontra-se insulada em um gueto, circulando num universo
restrito a quase iniciados. Ao ceder à necessidade de ampliação de público e de
busca de reconhecimento de seu valor, o autor parece anular a validade da
própria criação. Esta é vista como salvação, redenção do espírito, uma
tentativa de superar a morte e o desamparo da condição humana, por isso
Stamatius pode pensar autocriticamente: “Consciência de estar aqui na Terra, e não
ter sido santo nem suficientemente crápula. De inventar, para me salvar.” (CS,
141-142)
A
necessidade de transcendência impede a concessão ao barateamento e à
falsificação da literatura. Prova da incapacidade de revestir a linguagem do
verniz da superficialidade necessária ao êxito comercial fica patenteada no
convite feito a diversos amigos para que lhe contassem histórias bem sórdidas.
A insatisfação de Stamatius advém de um grau de exigência extremamente elevado.
Os amigos contam histórias pornográficas, sujas, mas consideradas chatas,
entediantes, pois não alcançam a dimensão de histórias de putarias, entendidas
como experiências radicais que pervertem e ampliam o horizonte humano.
Stamatius/Hilda Hilst não conseguem o registro pornográfico, a inventiva, a
inquietação, a linguagem, tudo supera os limites estreitos de um erotismo
cristalizado em fórmulas tão gastas quanto as perversões sexuais. É na falha do
projeto pornográfico que a literatura hilstiana assume uma dimensão libertária,
redimensionando o corpo e o sexo, transformando transgressão em transcendência,
expelindo deus e demônio pelos poros da narrativa, que respira sarcasmo e
abandono, perversão e luminosidade. O demônio pode surgir sem culpa ou medo,
nu, de pau mirrado, citando versos de William Blake. O sexo atravessa todas as
esferas do pensamento. Deus e demônio possuem um pau. Os deuses falocêntricos
organizam um universo machista, no qual a mulher – Eulália – é sombra,
projeção, oco, buraco, espaço de descarga, acionado ou apagado por um narrador
impiedoso e perdido.
O
conto termina com o narrador matando Eulália, o seu duplo, reconhecidamente
considerada como “...meu ganido-mulher-diante-da-vida de um jeito pungente e
delicado, submisso e paciente.” (CS, 148)
As
últimas palavras, no entanto, servem como senha para a última parte da obra. Ao
dizer que vai engolindo Eulália e se demitindo, o narrador acrescenta que
restarão os ossos dele e pergunta se deve poli-los antes de sumir. As histórias
finais do livro parecem responder ao processo de canibalismo apontado.
Novos antropófagos
A última parte do livro, "Novos antropófagos", apresenta oito contos curtos e uma espécie de brevíssimo epílogo. A concisão liga-se estreitamente a um verdadeiro teatro de crueldade alimentado por pequenos episódios banais que explodem em extremados e minimalistas gestos de violência. Podem ser lidos como pequenas pílulas de veneno concentrado, ou como setas mínimas com curare na ponta, fatais ao leitor. Aqui, Hilda exercita o dom da síntese, excede na aproximação do horror e faz da linguagem literária seu campo de batalha, de onde, afinal, sai vencedora.
O
primeiro conto é uma história sórdida na qual um homem mata a esposa com uma
facada no peito. A violência irrompe em meio ao tédio e ao ressentimento cotidiano
de um casal.
A
segunda narrativa é um exercício estupendo de humor negro construído com a
duplicidade de significado do termo fôlego. O protagonista vinga-se do amigo
que condenava constantemente o seu estilo, propondo-lhe uma travessia que redundará
na morte do crítico infeliz. A metaficcionalidade hilstiana deixa entrever nas
características atribuídas ao estilo do narrador uma referência às do conjunto
da obra da própria autora:
(...)tu não tens
fôlego, meu chapa, tudo acaba muito depressa, tu não desenvolve o personagem, o
personagem fica por aí vagando, não tem espessura, não é real. Mas é só isso
que eu quero dizer, não quero contornos, não quero espessura, quero o cara
leve, conciso, apressado de si mesmo, livre de dados pessoais, o cara flutua,
sim, mas é vivo, mais vivo do que se ficasse preso por palavras, por atos, ele
flutua livre, entende? (CS, 154)
Na terceira história, a violência brutal eclode entre um casal. O homem tenta impedir a mulher de vestir uma blusa fininha, porque os bicos dos seios ficavam visíveis. Contudo, acaba cedendo aos desejos do cônjuge e permite não só o uso da peça do vestuário como a acompanha em passeio pelas ruas. Inesperadamente, decepa-lhe o bico do seio esquerdo e coloca-o sobre o sorvete que saboreava. O conto termina de modo grotesco, o bar ficou conhecido como Bar do Bico e o narrador reproduz uma fala hipotética de maneira mórbida e debochada: “Sorvete, dona? Com bico ou sem bico, madama?” (CS, 154)
A
próxima história é construída na mesma linha sórdida das anteriores, só que sem
a presença de qualquer forma de humor negro. A trama explora o relacionamento
entre uma menina entre onze e doze anos e um homem bem mais velho. O exercício
de pedofilia tem na menina o agente sedutor e provocativo. É dela a iniciativa
da abordagem e das ações. Age com segurança e de modo absolutamente
profissional. Conduz o homem, determinando a relação, transformando-o em um
pedófilo passivo, dando-lhe prazer e aniquilando-o.
A
quinta história é um assemelha-se a um exercício de nonsense. No início do conto somos apresentados ao protagonista que
parece ter como objetivo na existência uma paz, uma quietude absoluta. Revela
horror ao sexo e nojo de corpos nus. Sua ojeriza era tão violenta que se estende
às ideias, percebe que as melhores também possuíam cheiro de sexo. Então só lhe
restava esvaziar a mente. No entanto, a narrativa termina com o leitor da Ortodoxia, de Chesterton, sodomizado por
um garotão. O percurso do protagonista, da negação do sexo ao esvaziamento da
mente, passando pela negação das ideias, é, na verdade, uma fantasia que serve
de refúgio à incapacidade de enfrentar o seu homossexualidade.
A sexta história é um relato clássico de iniciação sexual, organizado de modo bem convencional para o padrão hilstiano, sem voos estilísticos, sem violência, estado agônico. Há uma sexualidade de descoberta doméstica à qual pode ser atribuída mais um caráter de travessura do que de transgressão. A sua estrutura concisa, linear e previsível faz com que destoe das outras histórias de “Novos antropofágicos”.
O
sétimo relato explora o jogo entre a ideia de entrar e sair do corpo humano. O
sexo não se conjuga com coprologia. Um peido adolescente interrompe a relação
entre o protagonista adolescente e a empregada, Nena, tão desejada.
Eulália,
que parecia para sempre apagada da história, ressurge para manifestar nojo e
repulsa pelo mau gosto do narrador que a despacha também de modo flatulento.
A
ultima história explora um humor delirante. O diálogo entre o poeta
perfeccionista, que há dez anos tentava escrever o primeiro verso de um poema,
e a mulher dele é totalmente hilário. A mulher não entende nada do que o poeta
fala e, por sua vez, o verso é horrível: “Igual ao fruto ajustado ao seu
redondo...” A tensão entre o casal, os recursos agenciadas na elaboração do
relato, o humor corrosivo e metaficcional, o absurdo dos diálogos, entre outros
elementos, transformam o conto em uma pequena obra prima.
Após
esse conto, surge um minúsculo texto que acumula as funções de epílogo de Cartas de um sedutor e de retrato
sintético de Stamatius: telúrico, único, imerso nos sonhos de deuses e da
literatura, cruel porque desesperado por gritar e receber por eco a
desesperança. Seus sonhos de favas negras e asas semeiam à terra de uma nova
linguagem.
Notas
1) As ideias de Foucault sobre sujeito e subjetividade são fundamentais à compreensão do caráter proteico do narrador hilstiano. Disse o teórico francês sobre o sujeito algo que aparece com nitidez na obra hilstiana: “...no curso de sua história, os homens jamais cessaram de se construir, isto é, de deslocar continuamente sua subjetividade, de se constituir numa série infinita e múltipla de subjetividades diferentes, que jamais terão fim e que não nos colocam jamais diante de alguma coisa que seria o homem.” Apud, REVEL, Judith. Foucault: conceitos essenciais. São Paulo: Claraluz, 2005, p. 85
2) Vale notar que mil exemplares da primeira edição de Cartas de um sedutor foram devolvidos à Editora Pauliceia.
Referências
BATAILLE, Georges. O erotismo. Trad. Antonio Carlos Viana. Porto Alegre: L&PM, 1987.
BAUDRILLARD,
Jean. Da sedução. Trad. Tânia Pellegrini. 5ª ed. São Paulo: Papirus, 1991.
BOURDIEU,
Pierre. A dominação masculina. 4ª. ed. Trad. Maria Helena Kühner. São
Paulo:
Bertrand
Brasil,
HILST,
Hilda. Cartas de um sedutor. São Paulo: Globo, 2002.
KIERKEGAARD,
Soren Aabye. Diário de um sedutor. Trad. Carlos Grifo. São Paulo: Abril
Cultural,
1974.
QUEIROZ,
Vera. Hilda Hilst: três leituras. Florianópolis: Editora Mulheres, 2000.
REVEL,
Judith. Foucault: conceitos essenciais. São Paulo: Claraluz, 2005.
* Publicado na Revista Travessias, nº 9, out.-2010, UNIOESTE, Paraná.

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