HILST
- vivez nos vãos *
O livro A obscena
senhora D, de Hilda Hilst, foi publicado em 1982. O registro temporal serve
apenas para situá-lo como um texto revelador de toda a riqueza do mundo
hilstiano, revelado ao público em 1950, com o lançamento de Presságio, um livro de poesia, e
enriquecido com dezenas de publicações de textos dramáticos, ficcionais ou
poéticos.
A escolha dessa narrativa como objeto de reflexão deve-se,
independentemente de sua qualidade intrínseca, à posição central no conjunto da
obra, ao seu poder de síntese da escrita hilstiana, em que pese a ausência de
manifesta intenção da autora em operar de modo racional esse percurso e as
lacunas produzidas pela não abordagem de um ou outro ângulo essencial à
apreensão do complexo universo da autora. O fato essencial é que o relato
apresenta temas recorrentes: a experiência amorosa na variabilidade entre o
terno e o pornográfico; a inquietação metafísica e a dúvida teológica
traduzidas ora em linguagem de alto grau de apuro formal, ora em irritadas
expressões de furor e revolta; a constante ironia incisiva pulverizando a
normalidade, os gestos cotidianos construídos com hipocrisia e incompreensão; o
humor negro, vingança sobre a própria condição humana e seus limites estreitos;
e o domínio da linguagem, a montagem de um texto capaz de abolir hierarquias
tipológicas ao incorporar ao fluxo narrativo um ácido, cortante e pungente
lirismo e um drama que se encena no palco da consciência.
Hillé, a narradora-protagonista, desponta logo no início da
narrativa como personagem marcada pelo deslocamento: "Vi-me afastada do centro” (HILST 2001: 17). Sua excentricidade
corresponde ao deslocamento de seus passos, expulsos do caminho da normalidade
resignada do mundo e desviados para um percurso que conduz à 'cegueira
silenciosa', sinestesia explicitadora da inconclusividade da busca existencial.
A escrita é busca e perda. A consciência de apenas ser na
linguagem, formulação heideggeriana, é insuficiente para alcançar a, chegar a,
uma vez que não há nada no horizonte − ele está contido no olhar e por isso é
projeção especular da finitude humana. Não representa um desenho fixo, não
possui centro. À deriva, o ser faz do caminho balbucio, tateio, tropeço. Os
limites, se por um lado representam impossibilidade, oclusão, por outro lado,
contêm a promessa de ruptura e de ampliação porque a expansão está presente,
ainda que sob a forma de ilusão, no horizonte humano. O devir, destarte, é uma
tensão dialética entre finito e infinito. Essa tensão pulsa no romance de Hilda
Hilst com uma certa conformação barroca − a linguagem mais grotesca, baixa,
vulgar convive de modo antitético com sofisticada pesquisa ontológica e
indagação teológica. A não obtenção de respostas não é o fato mais
significativo − o mover-se é impulsionado pela recusa ao não e à ausência.
Hillé, mulher de sessenta anos, carrega um pesado histórico de buscas, sem
alívio, sem a ilusão de respostas.
É no interior de uma falta transformada em Falta que o termo
Derrelição − desamparo, abandono − pode ser compreendido. Ele remete ao nascimento
para assinalar que não nascemos, ou seja, que nunca estamos preparados para o
mundo, sozinhos não vingamos e, apesar de tangências afetivas − apesar de Ehud
−, ancorados em nossa radical incompletude, estamos sempre em pânico e à
procura de abrigo. Só os acontecimentos interpretáveis podem afastar esse
estado angustiante, por isso viver é a tentativa de leitura de mundo (isto é, a
tentativa de dar significação aos acontecimentos, não importando se eles a
possuem ou não). Por essa razão, a linguagem investigativa de Hillé
dissemina-se de modo tautológico nas páginas do romance.
desde sempre a alma em vaziez,
buscava nomes, tateava vincos, acariciava
dobras, quem sabe se nos frisos,
nos fios, nas torçuras, no fundo das calças nos
nós, nos visíveis cotidianos, no
ínfimo absurdo, nos mínimos, um dia a luz, o
entender de nós todos o destino,
um dia vou compreender, Ehud
compreender o quê?
isso de vida e morte, esses porquês
(HILST 2001: 17-18)
A angústia provocada pelo desamparo não se confunde com a
ansiedade, pertencente aos fenômenos do temor, pois não é gerada por um ente
determinado: este ou aquele. Na filosofia de Heidegger:
Sem dúvida, a angústia é sempre
angústia diante de..., mas não angústia diante
disto ou daquilo. A angústia
diante... é sempre angústia por..., mas não por isto
ou aquilo. O caráter de
indeterminação daquilo diante de e por que nos
angustiamos, contudo, não é apenas uma
simples falta de determinação, mas a
essencial impossibilidade de
determinação
[...]
A angústia manifesta o nada.
"Estamos suspensos" na
angústia. Melhor dito: a angústia nos suspende porque
ela põe em fuga o ente em sua
totalidade. Nisto consiste o fato de nós próprios
− homens que somos − nos
fugirmo-nos no seio dos entes. É por isto que, em
última análise, não sou
"eu" ou não és “tu” que te sentes estranho, mas a gente
se sente assim. Somente continua
presente o puro ser-aí no estremecimento
deste estar suspenso onde nada há
em que apoiar-se.
A angústia nos corta a palavra.
Pelo fato de o ente em sua totalidade fugir, e
assim, justamente, nos acossa o
nada, em sua presença, emudece qualquer
dicção do "é".
(HEIDEGGER 1969: 31-32)
A inquietação metafísica não é apresentada em nichos discursivos
demarcados, capazes de assinalar uma posição superior; pode irromper a qualquer
momento, durante a realização dos atos mais prosaicos ou mesmo em ocasiões
inusitadas, como em plena atividade sexual. Essa natureza confere à reflexão um
caráter obsessivo, compulsivo, redimensionando todas as outras práticas em
função da hegemonia concedida à indagação ontológica, cujas questões −
irresolvidas porque irresolvíveis − alteram toda a prática social, as relações
familiares, as relações de amizade e as de vizinhança que, deslocadas, fazem
emergir a diferença, a singularidade como estranheza, doença, anormalidade.
Por outro lado, como reação a não obtenção de respostas o sujeito
descentrado da narrativa engendra uma estratégia da espera: "Não, não
compreendia nem compreendo [a ausência de resposta], no sopro de alguém, num
hálito, num olho mais convulsivo, num grito, num passo dado em falso, no cheiro
quem sabe de coisas secas, de estrume, um dia um dia um dia" (HILST 2001:
19).
Deus − a resposta que unificaria todas as outras − pode surgir
também em qualquer ponto da narrativa. Surge do e no corpo da protagonista. O
Todo, o Incomensurável, o Mais, materializado em alimento − símbolo de uma
apropriação espiritual − é inserido em meio à fala de Ehud que denota o ato
sexual. Hillé toda molhada de excitação orgíaca é a mesma a engolir fundo,
salivosa, a hóstia purificadora, lambendo-o como se fosse um pênis. O sexo e o
sagrado cruzam as linhas do destino, sem que haja diferença axiológica.
A estranheza de Hillé estigmatiza a sua casa, o refúgio uterino de sua
trajetória regressiva − Casa da Porca, na referência depreciativa dos vizinhos.
O relacionamento com o mundo, expresso no estigma linguístico, é de confronto,
rejeição e distância. Os gestos obscenos, as caretas, os urros, os palavrões,
as máscaras e as janelas fechadas evitam a impureza de contato, mantêm o vazio
necessário a investigação do ser, todavia são signos que legitimam a exclusão
operada pela razão legisladora ao reforçarem o estigma.
Há um exílio deliberado: "Não pactuo com as gentes, com o
mundo, não há um sol de ouro no lá fora” (HILST 2001: 25). Morar no exílio é
habitar o abismo do ser. As máscaras não ocultam, antes são revelações da
identidade, melhor, formas de busca, retratos de um desvelamento existencial de
um 'alguém-mulher', memória de um aprendizado de sombra e crueldade do real
enquanto perda e esvaimento perenes. Incomodam pelo que revelam, por exibirem a
leitura secreta dos papéis sociais: por essas letras percebe-se a ilogicidade
da gramática social e a hipocrisia das convenções, a cisão entre o ser-aí e a
teia da vida social. É o mundo, do outro lado da máscara, que esconde sua
certeza e sua civilização e exprime a forma clandestina do seu rosto: o medo, o
receio, o pavor ao que não pode ser controlado. E não há nenhuma certeza,
nenhuma forma de controle sobre a existência. Como mecanismo de defesa, a
vizinhança, alteridade sem troca, sem diálogo, transforma-se em vigilância e
estatui um código de conduta para situações em que se veja ameaçada: em seus
implícitos e explícitos, o estigma, a censura, a condenação, o preconceito, a
exclusão, a zombaria e outros processos similares: em seus pressupostos, a
anulação de toda diferença.
A rejeição ao mundo, a desconstrução do nascimento, investe Hillé de
propriedades regressivas. Assim, a casa é mãe; o vão da escada, a placenta; o
pai, o prazer inaugural reprimido; Ehud, um novo pai-amante; as provocações à
vizinhança, novos e cruéis jogos infantis; as máscaras, caretas e urros, formas
primitivas de linguagem; a animalização, símbolos da quebra de vínculos
humanos.
A metamorfose animal é um tema recorrente em toda obra de Hilda
Hilst, expressa uma volta a um estado de inocência, como bem observou Cláudio
Carvalho:
O desejo de ser "porca",
"zebu", "girafa" é uma tentativa de escapar do
simbólico e da internalização dos
códigos culturais. Só assim − despida de
palavras, munida apenas de urros −
ela, talvez, pudesse ser ‘teófaga ncestuosa'
sem sentir culpa. É para um real
impossível − como diz Lacan –, para um útero
cósmico só acessível aos animais
que a Senhora D deseja retornar. Um mundo
imaginário e pré-simbólico. Como
podemos perceber, a Senhora D nunca
abandonou, de fato, suas mais
remotas fantasias infantis. (CARVALHO 1999:
120-121)
Ser búfalo, zebu, girafa desde sempre implica um tempo anterior à
humanidade, um mergulho no escuro, pasto de Hillé-búfalo, lugar que não
desperta temor, pois sem consciência de ser não há sofrimento, dor, angústia,
nem saber sobre morte e infinito.
É ainda no plano da animalidade que Hillé e Deus podem tornar-se
amantes: a protagonista, transformada em porca, compartilha a mesma natureza de
um deus sob a forma de Porco-Menino Construtor do Mundo. Um deus-porco permite
florescer a natureza da teófaga insaciável. Os gestos de ambos mancham a
existência de dúvida e inquietação.
A remissão à pré-humanidade, a relação incestuosa com
deus-pai-eterno não esgotam o caráter regressivo da animalização. Há uma
terceiro aspecto essencial para decifrar o enigma hilstiano, a percepção no
olhar da protagonista de uma propriedade pertencente ao "olho adiáfano,
impermissível, opaco" (HILST 2001: 27) dos bichos: "o olho dos bichos
é uma pergunta morta” (HILST 2001: 30).
A privação de luz, a opacidade do olhar, a ausência de brilho
correspondem à inexistência de explicações, justificativas, razões. Devastado o
território de legibilidade do mundo, a senhora D vira presa fácil.
(...;) é em A obscena senhora D,
talvez, que o universo agônico da escritura
hilstiana tenha chegado ao seu
ápice. Um dos efeitos de sua dramaticidade
advém da força plástica das
imagens, no movimento de acuo de fera em que se
debate a personagem, em sua
violência impotente, a imprimir uma dupla
dinâmica a senhora D (de
Derrelição): por um lado, ela externaliza as
dilacerações de seu ser, embora
não se mova para fora de si; por outro lado,
seus diálogos-monólogos funcionam
como bumerangues, que batem em Ehud e
voltam, sem no caminho encontrar
respostas apaziguadoras. Nessa espiral, o
leitor não tem como escapar ileso:
vê-se tão encarcerado quanto a senhora D.
Pode-se considerar, numa perspectiva
crítica feminista, que a personagem
mulher, por suas históricas e
sociais experiências de aprisionamento, catalise
com maior efeito dramático tais
situações (...) o que (i)mobiliza Derrelição é
algo de outra ordem, embora seu
nome, desmembrado em tantos outros, seja
também Deus, mas um Deus que
figura ora como caçador, ora como caça. O
vocábulo ‘presa’, em sua tripla
articulação de substantivo, verbo e adjetivo,
configura de modo eficaz o campo
semântico e o perfil da personagem: presa
em delírios, entre os vãos da
escada, à caçoada dos passantes, que buscam sem
sucesso aproximar-se e
alimentá-la, D, a louca, ata e desata os limites de sua
lucidez. (QUEIROZ 2000: 21-22)
O sonho nirvânico de retorno a um estado primitivo é perturbado,
no entanto, pelo “lá fora”. As vozes externas localizam-se a partir de Hillé,
brotam de sua memória e de suas reflexões. A multiplicidade de focos
inviabiliza a unificação imperial do sujeito que relata uma verdade. O sujeito
descentrado sustenta-se na narrativa polifônica, fica implícito no significado
das vozes por onde ecoa a sombra de sua identidade. O sujeito é o eco da
pergunta lançada ao cosmos, o eco reprodutor do desabar de certezas e
conhecimento.
O mundo social, transformado em forma discursiva, exibe
referências que extrapolam o texto, ao apontar para uma perspectiva crítica em
relação à produção da autora. Uma delas corresponde à deslegitimização das
obsessões metafísicas da senhora D (e da obra hilstiana). A qualidade textual
deveria ser buscada na valorização do aqui e agora, dos elementos da realidade
moderna, ironicamente denominados modernosos pela narradora. A alma e a morte,
aos olhos de tal concepção estética, são temas marginais, ocupam uma posição
secundária nos interesses dos seres encantados com os movietones, os vídeos, as
formas do instante, as notícias e a logorreia dos controladores do mundo e da
informação do tipo o-que-que-está-acontecendo-agora. Puro engodo, o aqui-agora
transformado em espetáculo, a multiplicação de informações com a finalidade
controladora de impedir a gênese de qualquer pensamento, de promover o esquecimento
das dúvidas essenciais, de mascarar o fluxo temporal de ser para a morte, de
abortar o nascimento do demônio pessoal − a descoberta da voz interior como
marca de identidade.
A preocupação metalinguística faz-se acompanhar de referências a outras
narrativas, revisitadas no texto, num gesto de explícita filiação. A
experiência radical de Rimbaud aguça as dúvidas, reforça a perplexidade, ao
mesmo tempo em que revela a linguagem como o único código de busca. A
correspondência entre Kakfa, Milena e Brod possui analogia com os textos
hilstianos: são "textos bizarros" (HILST 2001: 44). O suicídio de
Tausk desponta na presença de diversas mortes no romance: do pai, de Ehud e da
própria senhora D. A referência a Lou Salomé e Freud inscreve-se como marca da
(in)compreensão da natureza humana. Certas referências denunciam um impacto tão
profundo que são capazes de surgirem no relato de maneira surpreendente. Hillé
paralisa uma cena de apelo erótico ao trocar as carícias de Ehud por uma
inesperada reflexão sobre A morte de Iván
Ilitch, uma novela de Tolstói. O pensamento enunciado pode ser lido como
análise do texto tolstoiano ou como referência à própria vida de Hillé:
"Por favor, queria te falar, te falar da morte de Ivan Ilitch, da solidão
desse homem, desses nadas do dia a dia que vão consumindo a melhor parte de
nós, queria te falar do fardo quando envelhecemos, do desaparecimento, dessa
coisa que não existe mas é crua, é viva, o Tempo” (HILST 2001: 18).
A constante aparição de Ehud organiza uma relação familiar quase
comum, banal. Ehud é uma espécie de filtro da realidade externa, um tradutor do
lá fora, um marido em exercício de dominação, ainda que amistosa e suave. Em
várias passagens do texto almeja que lhe seja servido um café e sempre solicita
agrados sexuais, ou seja, demarca o espaço doméstico feminino como o local de
execução de tarefas estabelecidas por um centro − o marido. É um interlocutor
duplo: vivo, é a voz do aconselhamento, das ligações com o real concreto, da
racionalidade social − sabe que não existem respostas −: morto, é vivenciado
por Hillé como pungente experiência de perda. Ehud é o interlocutor, aquele
para quem Hillé fala, porém, num perturbador paradoxo, também é uma voz de
Hillé. A presença do companheiro é um fio estruturante da narradora, uma vez
rompido, Hillé sente-se mais desamparada. Troca os peixes por simulacros de
papel porque não há mais como cuidar da vida. Pela mesma razão subtrai o brilho
ao olhar. Em ambos os atos a tradução da dependência afetiva em relação ao
marido, aquele que teve o poder de (des)nomeá-la, reduzindo o nome a apenas uma
letra, reduzindo-a de mulher a problema − por isso reclama que as pessoas
precisam foder, que está cheio dos sussurros e dos cochichos por trás de portas
entreabertas quando passa pela vila, cheio de explicar ao mundo as
excentricidades da esposa.
A perda de Ehud acentua os traços regressivos e o viver deslocado. A
senhora D, totalmente enclausurada em seu mundo interior, não pode aceitar o
gesto de boa vontade de uma vizinha a lhe oferecer dois pãezinhos. O presente
possui um preço muito elevado: a interferência de estranhos em sua vida, uma
profunda transformação de espaços, gestos e pensamentos. O ato amistoso
pressupõe um pacto de convivência. Caberia a senhora D evitar a a criação de
constrangimentos para os moradores. Oferta vã: não pode haver conciliação,
porque ela não almeja con/viver, mas viver.
A linguagem pesada, obscena, registra o fracasso das tentativas de acordo. O
desencontro manifesta-se numa escrita de cólera, fúria, autêntica forma
impressa da hybris, da cisão entre
sujeito e significado.
Na literatura de Hilda Hilst a preocupação com a palavra não está
presente de modo semelhante ao da obra de Clarice Lispector. O texto hilstiano
não se fixa naquilo que a palavra revela, mas naquilo que é inominável na
linguagem. Busca a senha iluminadora do vazio no próprio vazio, resulta, dessa
forma, de um intrincado jogo de máscaras (já que nenhum rosto é possível)
textuais no qual se busca a transcendência do existir.
Dotada de fúria iconoclasta, de um pathos reflexivo, de um lirismo
difuso, a narrativa hilstiana pode ser vista como uma forma híbrida,
responsável pela dificuldade oferecida a apreensão crítica: "No nível da
microestrutura textual também é um texto difícil de classificar. Incorpora registros
orais populares, palavras e raciocínios mais sofisticados, palavras chulas,
construções poéticas atrevidas e inusitadas, desrespeito às normas
gramaticais”. (CARVALHO 1999: 111)
A fragmentação discursiva possui uma arquitetura capaz de sustentar a
legibilidade do enunciado: "...a estrutura ficcional de Hilda Hilst
constrói-se por meio de microestruturas estilísticas (o uso de um texto poético
em verso em meio a uma estrutura narrativa ou dramática) e de macroestruturas
técnico-compositivas − a colagem intragenérica de textos que resultam num texto
híbrido único".(QUEIROZ 2000: 63)
A dicção hilstiana é modulada mediante um alto trabalho de elaboração
estética, capaz de levar o receptor a internalizar a vertigem metafísica do
universo do enunciatário:
A ideia de opacidade do discurso
hilstiano diz respeito não apenas aos temas
com os quais trabalha, mas
sobretudo à sua linguagem literária, responsável
pelo que chamei de 'força de
repulsão', na medida em que sua engrenagem é
movida, já se disse, a marteladas.
Se, por um lado, tal discurso articula-se em
meio a perguntas de vigorosa
ressonância filosófica, religiosa e mística, no no
sentido de busca por uma
transcendência que supere os vazios inerentes à
condição humana, utilizando então
uma dicção culta, não raro de alto lirismo e
de metáforas inaugurais, por outro
lado, quando as respostas a tais perguntas
falham − e elas falham quase
sempre −, a ira incontida, a fúria e a iconoclastia
apossam-se do discurso, e a frase
será então uma torrente incontrolável e
incontornável de impropérios, de
imagens coprológicas, de blasfêmias. Tal
processo ocorre sem mediações, de modo
que o leitor se vê numa montanha
russa, em alta velocidade, de onde
não pode descer − ao menos enquanto viger
seu pacto com a leitura. (QUEIROZ
2000: 19)
Hillé busca a si mesma. Não há uma identidade, o seu rosto é proteico,
adquire a conformação de quem se volta para ele, por isso não corresponde a um
sujeito, porém a diversas representações dele; nenhuma exata e nenhuma
incorreta. A construção de um sujeito implicaria a legibilidade do mundo, o
perecimento de qualquer questão. Assim, Hillé constitui-se em diversas
perspectivas. Há uma excêntrica Senhora D − a grande porca acinzentada − para
os moradores da vila. Outra versão doméstica da grande porca circula na
narrativa − a pequenina porca ruiva, repleta de indagações − para alguns
conhecidos. Existe também sob a forma de pura pergunta, autêntico e altivo
paradoxo, endereçada à mãe. Ao pai, apresenta-se como segredo, escuta, concha,
simbologia edipiana de sentimentos clandestinos. Para Ehud, Hillé é a mulher
contraindo-se em uma letra, em um vão da escada. Nenhuma é Hillé porque todas o
são.
Porco-Menino é o abismo no qual não se vê representada, nele perecem os
textos e as palavras. Interlocutor de ausência e amante da sua carne e do seu
espírito, Deus entope a boca de Hillé de terra, cascalho, de palha, ou seja, é
mão castradora do discurso, a causalidade culpada do homem e de sua
incompletude, a desarticulação de perguntas e respostas.
Nenhum outro ser humano possui a capacidade de decifrar o deus-enigma.
Isso fica evidenciado no diálogo com o padre que vem, a pedido da vila,
'auxiliá-la'. Ao descobrir que o religioso é "um homem como outro
qualquer" (HILST 2001: 32), ou seja, não possui nenhuma resposta para as
perguntas essenciais que formula, expulsa-o inconformada.
O Menino Precioso, Luzidia Divinoide Cabeça, desperta sentimentos de
amor e ódio. O amor é explicitado na tentativa de encontrar o Menino-Porco, o
ódio resulta da indiferença divina, pois o criador, mesmo dissolvido em todas
as coisas e seres por ele concebidos, não faz parte do lixo criado. Hillé
investiga impiedosamente esse deus. O aspecto coprológico adquire então um
significado mais preciso. O buraco de Deus (imagem e semelhança), o ânus divino,
é o espaço do nascimento. O universo todo, portanto, é constituído por dejetos,
os elementos rejeitados por Deus, daí o abandono e o silêncio.
Hillé percebe Deus como uma figura paterna:
como será a cara DELE hen? é só
luz? uma gigantesca tampinha prateada? não
há vínculo entre ELE e nós? não
dizem que é PAI? não fez um acordo conosco?
fez, fez, é PAI, somos filhos. não
é o PAI obrigado a cuidar da prole, a zelar
ainda que a contragosto? é PAI relapso?
(HILST 2001: 38)
Para Freud, o pai é visto pela criança como sucessor da mãe no plano da
proteção familiar. Apesar disso, também é percebido como fonte de perigo, já
que associado à mãe, figura como rival na disputa pela atenção materna. Desse
modo, os sentimentos da criança são ambivalentes, moldados por desejo,
admiração e temor. Ao crescer, o indivíduo pode tornar-se independente da ação
do pai biológico, mas a sua identidade psicológica permanece condicionada à ideia
de um ser que o livre do desamparo:
Quando o indivíduo em crescimento
descobre que está destinado a permanecer
uma criança para sempre, que nunca
poderá passar sem proteção contra
estranhos poderes superiores,
empresta a esses poderes as características
pertencentes à figura do pai; cria
para si próprio os deuses a quem teme, a quem
procura propiciar e a quem, não
obstante, confia sua própria proteção. Assim,
seu anseio por um pai constitui
motivo idêntico à sua necessidade de proteção
contra as conseqüências de sua
debilidade humana. É a defesa contra o
desamparo infantil que empresta
suas feições características à reação do adulto
ao desamparo que ele tem de
reconhecer − reação que é, exatamente, formação
da religião. (FREUD 1970: 29)
Cabe a esse pai proteger o indivíduo contra os terrores da natureza,
exorcizando a força destrutiva dos elementos desconhecidos e protegê-lo da
morte, compensando-o por todos os sofrimentos e privações da existência. Essa
prática protetora corresponde ao acordo cobrado pela protagonista.
Um deus que não cumpre a promessa de felicidade só pode ser concebido
como um menino louco. Ignora qualquer acordo ou contrato, pois não pode
preencher as lacunas humanas porque também vive no deserto, no vazio escuro,
também habita o nada. O diálogo entre o Menino louco e Hillé capta o
desencontro, Hillé não pode escutar o discurso de deus, entre eles existe um
fosso intransponível.
Quanto maior o silêncio, mais alto fala o desejo. E o desejo de deus
assume formas sensoriais, daí o apelo constante à visão, ao tato, ao olfato, à
audição e ao paladar. A teófaga precisa degustar o divino, incorporá-lo
organicamente, canibalizar a divindade, única forma efetiva de relação
incestuosa entre o humano e o sagrado. Através desse ritual em que deus é
materializado no plano sensorial, única aproximação possível, Hillé pode ser
possuída e possuir o pai, não obstante o caráter fictício da posse, autêntica
construção no abismo, no nada. Resta-lhe apropriar-se da fórmula bíblica do
abandono irremediável: lama sabactani.
A morte surge como expressão máxima do sentimento de desamparo.
Apresenta o tempo como uma escrita de ruínas, de decomposição eterna dos seres
e do mundo. Os mortos surgem em suas formas decompostas, resíduos da
existência, fezes, dejetos. O pai, o amante, Hillé, todos comidos, regurgitados
e expelidos por um deus-demônio no palco vazio do universo.
A narrativa hilstiana consegue circunscrever o leitor nesse círculo de
desamparo, como registra com precisão Vera Queiroz:
O amor é flagrado, sobretudo, em
seus vários estados de decomposição,
arrastando consigo uma linguagem
ao mesmo tempo sublime e chula com altos
voos líricos e vocábulos de baixo
calão. Isso se dá em razão de que as tramas
hilstianas organizam-se em torno
de estados agônicos de ser dos personagens
mobilizados por situações
apresentadas já em seu clímax, de modo que o leitor
é convocado desde o início a
partilhar, sem escolha, da vertiginosa voragem de
questões postas em geral ao ser
catalisador dos abismos: − Deus, cujos nomes
desdobram-se em dezenas de outros,
por processos também eles múltiplos –
metáforas, metonímias e perífrases
configuram aqui estratégias de cerco ao
nome e à coisa, e também ao
leitor, por elas capturado. Nesse sentido, a
literatura de Hilda Hilst vige à
beira de, e projeta no leitor um estado de sítio
constante, em função das
excruciantes demandas pelo inominável − o sentido da
vida, o sentido da morte, as
formas do amor, a fatalidade do tempo. Tais os
grandes enigmas e os abismos
metafísicos que engendram os personagens essa
obra única, e que os obsedam.
(QUEIROZ 2000: 16)
Se for levado em consideração o raciocínio de Freud de que a culpa é a
reação a um impulso repudiado, A obscena
senhora D é uma narrativa impressa com a caligrafia da culpa. Inscrição tão
forte que nenhum ato de exorcismo será capaz de anulá-la. Aos olhos do lá fora,
a excentricidade de Hillé é um movimento antinatural. Sua recusa à banalidade
cotidiana, sua busca enlouquecida é estigmatizada. Hillé exibe as marcas da
possessão em seu corpo, a porca que a habita e devora. Graças à estranheza de
suas atitudes é demonizada, nela estariam presentes os demônios Asmodeu e Astaroth.
A culpa é símbolo da transgressão à legislação da razão instrumental:
"o sentimento de culpa torna-se um dos mecanismos mais eficientes do
controle social e de garantia da autoridade, inicialmente marcada pelo pai, e
depois transferida para o Estado e suas instituições" (MANTEGA 1979: 17).
Ao lado da culpa sob a forma de condenação externa, surge a culpa
atribuída por ela aos próprios gestos.
Seu deslocamento corresponde a um movimento em direção a que não se
completa, um desprender-se que não se liberta, um mergulhar que resulta em
naufrágio. Hillé é um Édipo-mulher, uma crente herética e selvagem, um ser
emancipado da cena do cotidiano e colocado em pleno domínio de Ehud, do homem:
a cerrada e torturada reflexão metafísica. Rompe fundamentalmente vários e
submersos preconceitos, inclusive metafísicos: o de que a mulher é criada para
a imanência e não para a transcendência.
Ainda de acordo com o pensamento freudiano, não existe possibilidade de
os homens serem felizes porque a sociedade obriga-os a reprimir os instintos de
prazer − totalmente acesos na narradora-protagonista. A vila − metonímia do
superego − impõe regras de comportamento, todavia os instintos de Hillé não
podem ser atenuados, sublimados, despidos de sua carga de prazer.
Hillé dilacera-se por padecer de uma antitética natureza barroca:
floração de instintos e intelectualismo refinado.
Apesar da aventura radical, o voo cobra pesado tributo: a culpa, cuja
metáfora é a senhora P, é a tatuagem da regressão no obsceno corpo da senhora
D.
A proposição de novos paradigmas faz com que a obra de Hilda Hilst
adquira uma papel cuja importância só tende a ser ampliada com a constituição
de uma crítica capaz de captar toda a sua riqueza, tudo aquilo que acrescenta à
literatura de autoria feminina brasileira.
Se tais perguntas constituem, em
última instância, o húmus que fertiliza toda
grande obra literária, o processo
em Hilda Hilst singulariza-se no contexto da
tradição brasileira pela violência
que ela imprime ao diálogo com esse Deus
onisciente, a presidir um mundo em
caos, de que resulta uma espécie de
teogonia pagã e escatológica, cuja
linguagem jamais se detém face a regras ou
convenções "bem comportadas”:
o jogo de Hilda é uma aposta na desconstrução
radical do bom tom e da literatura
morna em favor de uma frase que atinge
extraordinárias voltagens líricas,
cuja pungência maior advém do encontro entre
os limites do baixo e do alto, em
que o escatológico, e mesmo o coprológico, se
leem como contraface do mesmo
movimento lírico. Hybris urbana e
pagã, a voz
que perpassa o discurso ficcional
de Hilda Hilst refrata e coloca em cena um
mundo em caos, cujos estilhaços
compõem a face do homem contemporâneo
em sua solidão e desamparo,
submetido às violentas desordens sociais, impostas
pelo viés mais cruel das economias
de mercado. Tal desordem, contra a qual as
crônicas publicadas em Cacos e
carícias constituem um libelo contundente,
funcionam na arte literária de
Hilst como motor de uma engrenagem discursiva
movida pela fúria iconoclasta, pela
uebra dos padrões e pela vontade de dobrar,
enfim, os limites da palavra, da
sintaxe e das convenções banalizadas.
(QUEIROZ 2000: 10)
A fusão de corpo e alma, o entendimento entre porca e louca, não
propicia o menor alívio. Em ambas a mesma ferida sem vivez, o mesmo processo
regressivo: o estado de pulverescência de Hillé.
Referências
CARVALHO,
Cláudio. "A mulher no vão da escada". In: CUNHA, Helena
Parente
(org.). Desafiando o cânone. Rio
de Janeiro: Tempo Brasileiro,
1999.
pp.109-124.
CUNHA, Helena
Parente. "A mulher partida: a busca do verdadeiro rosto na
miragem dos
espelhos". In: SHARPE, Peggy (org.). Entre resistir e
identificar-se:
para uma teoria narrativa brasileira de autoria feminina.
Florianópolis:
Editora Mulheres: Goiânia: Ed. da UFG. pp. 109-137.
FREUD.
Sigmund. O futuro de uma ilusão.
Ed. standart brasileira das obras
psicológicas
completas. vol. 1, pp. 13-71. Rio de Janeiro: Imago, 1970.
HEIDEGGER,
Martin. Que é metafísica? Tradução
Ernildo Stein. São Paulo:
Livraria Duas
Cidades, 1969.
HILST,
Hilda. A obscena senhora D. São Paulo: Globo, 2001.
MANTEGA, Guido.
"Sexo e poder nas sociedades autoritárias: a face erótica da
dominação".
In: Sexo e poder. São Paulo:
Brasiliense, 1979. pp. 9-34.
QUEIROZ,
Vera. Hilda Hilst: três leituras.
Florianópolis: Editora Mulheres, 2000.
* Trabalho publicado originalmente na Revista Garrafa, nº 14, jul./set. 2007, Programa de Pós-Graduação em Ciência da Literatura da UFRJ.

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